A Corda

Viveu como um fantasma, da mesma maneira que morreria, sem ter feito diferença nenhuma na vida dos outros. Não falava muito, aliás, quase nada. Trabalhou vinte e dois anos na mesma empresa e antes disso mais treze em uma concorrente. Mudou por vontade e convite. Iria crescer e fazer a diferença. A diferença ficou na marca do café. O que cresceu foi só a barriga atrás da mesa. O resto foi o mesmo. A mesma vida fudida de sempre. Não falava com ninguém, não tinha amigos, não saía para jogar bola e beber cerveja com os colegas, não tinha namorada e nem parentes. Ia para casa no final do dia para regar as plantas e assistir televisão. Passava na venda da Dona Sunta e comprava alguma comida, tomava um trago de Undenberg - só um, nunca mais do que um – e ia para o apartamento. Tão silencioso que nem notavam quando ia embora.
A rotina era sua vida. Até para dar uma trepada. Todo dia vinte e seis de cada mês, Bárbara ia ao seu apartamento, ele lhe acompanhava até seu quarto onde ela tirava a roupa, deitava de pernas abertas e ele se embrenhava entre suas coxas. Ficava naquele vai e vem durante quatro, no máximo, cinco minutos. Depois saia e deitava ao lado dela que esperava quieta por exatos dois minutos. Ele levantava e lhe dava o dinheiro.
- Desculpe alguma coisa.
- Tá tudo bem.
Esse era o único diálogo entre eles.
Ela sentiu uma diferença depois da morte da mãe. Depois de vinte anos servindo-o todo mês, escutou ele soltar um gemido, foi curto, quase imperceptível, mas ela escutou. Naquele dia ele pediu desculpas duas vezes.
Bárbara, que se chamava na verdade Maria das Dores, entregava-lhe suas carnes regiamente há tanto tempo que ele viu cada varize aparecer nas suas pernas, cada ruga sulcar-lhe o rosto, viu os seios murcharem, mesmo sem que nunca tivesse ousado tocá-los, só os via com o canto do olho, discretamente. Envelheceu ali. Naquele apartamento com ares de carniça.
Era seu último cliente fixo. Trabalhava na rua agora. Os cabaré só querem moças.
Ela era a única pessoa que conhecia aquele apartamento. Nunca falou nada da sujeira.
Ele cuidava da mãe desde os vinte anos. No dia da morte da senhora os vizinhos que entraram no apartamento de dois quartos e forro de gesso tiveram que tampar o nariz. De tanto a mãe se mijar nas fraldas e esperar ele voltar do serviço, o cheiro da urina foi impregnando as paredes, o sofá, o tapete... a pele.
Depois que ela se foi, os vizinhos puderam vê-lo sair duas vezes. Uma na missa de sétimo dia, outra na missa de um ano.
Bárbara era uma mulher exuberante. Pele leitosa, cabelos loiros e compridos, agora pintados por causa dos fios brancos; Seios fartos e duros, agora caídos e murchos; Coxas grossas, agora cheias de varizes; Ancas largas, agora cheias de estrias.
- Quer uns carinhos, bonitão?
- Não... eh… não, obrigado.
- Você não vai se arrepender.
Ela estava com um sapato alto, saia com corte na coxa, boca vermelha, um sorriso que mesmo forçado era bonito e aquele cabelão solto que ele gostava tanto. As madeixas exalavam um cheiro de maracujá. Seria capaz de reconhecer aquele cheiro em qualquer lugar do mundo. Cinco minutos por mês, nos últimos vinte anos, emaranhava-se naqueles cabelos, tentava não respirar, para manter aquela sensação mais tempo, mas ao respirar gozava.
Nas poucas vezes que trocaram palavras ele disse:
- Não faça barulho para não acordar minha mãe que está no quarto ao lado.
Anos mais tarde diria:
- Minha mãe morreu.
E ela disse seis vezes ao longo dos anos:
- O preço aumentou.
E uma vez:
- Meus pêsames.
Um dia, depois de receber o dinheiro foi ao banheiro, quando voltava viu algo embaixo da cama. Aquilo nunca estivera ali, conhecia bem o quarto e a cama de solteiro. Aquela noite ele também estava diferente. Antes de iniciar o coito ficou olhando para ela durante algum tempo. Sentiu o pescoço molhado no lugar onde ele sempre enfiava a cara, lágrimas, estranhou mais ainda, mas não perguntou nada.
Não queria incomodá-lo, ultimamente estava cada vez mais estranho. Depois que se aposentou ficou diferente, a casa mais suja, mais barbudo, deu para jogar as cinzas e bitucas de cigarro no chão do quarto, os cinzeiros estavam cheios demais.
Quando ele foi ao banheiro ela olhou sob a cama viu o que era. Assustou-se. Coração disparou. Entristeceu só de pensar na possibilidade.
Foi no dia vinte e seis de dezembro do quarto ano de seus encontros mensais que ele lhe deu de presente um pijama. Comprido e nada sensual. Ela agradeceu e disse que era bonito, e passou a receber pijamas de algodão todo dia vinte e seis de cada mês de dezembro. Era o único presente que recebia no natal. A filha e o filho nunca mais viu, a última vez que encontrou o filho e pediu uma ajuda, ele bateu a porta da casa e cuspiu na cara dela, tinha uma família agora, ela que nunca mais aparecesse ali.
Ele nunca regateou preço, possuíam uma relação comercial, afetos são proibidos nesse submundo cinza. Mas ultimamente a solidão que ele carregava invadia-lhe as narinas a ponto de sofrer por ele, e um dia se pegou ansiosa pela chegada do final do mês.
Foi uma surpresa e um susto quando ele saiu do banheiro e viu-a varrendo o chão. Em todos aqueles anos ela ia direto da porta de entrada para o quarto dele. Outros cômodos eram proibidos. Sentou na cama e ficou observando ela trabalhar. Então deitou e chorou, chorava convulsivamente, chorou tudo que nunca havia chorado em toda a vida miserável e vazia que teve. Ela sentou na cama e passou a mão no seu cabelo, ele perguntou:
- Quanto custa para abraçar?

Crianças são sinceras

Sinceridade I
O moleque chegou na sala de pijama, um ranho escorrendo do nariz, descabelado. Era ácido, era brigão, era sincero ao extremo, sem saber que naquele pequeno corpinho cabiam tantos adjetivos.
Olhou para a vizinha, moradora do apartamento antes do elevador. Era uma mulher um pouco mais nova que a sua mãe, mas quando abria a boca parecia ter mais que noventa anos.
Muitas vezes enquanto brincava no tapete da sala com seus carrinhos, soldadinhos e heróis, escutava o pai e a mãe discutindo sobre a novela, sobre o emprego do pai, sobre a escola da sua irmã. E algumas vezes sobre a vizinha do apartamento antes do elevador. Chamavam ela de jornal nacional do condomínio.
Naquele dia a mãe estava na cozinha buscando uma xícara sabe-se lá de que para emprestar à vizinha. Deram de cara um com o outro. Ele com o ranho no nariz, um urso sem um braço em uma mão e uma fralda suja na outra. Se olharam longamente ele e a vizinha. Então ele disparou:
- Minha mãe não gosta de você.
A mãe escutou na cozinha e veio correndo desesperada.
- Menino, que bobagem é esse?
Deu um sorriso amarelo para o “jornal nacional” e disse:
- Essas crianças... Não sei de onde tiram essas idéias.

Sinceridade II
Primeira vez na casa da namoradinha, devia ter uns quinze anos (eu, não ela, ela acho que era quatorze). Maior nervosismo. O pai dela, que tinha fama de brabo, chegaria em seguida. Ela morava num apartamento no térreo de um conjunto habitacional lá no Partenon em Porto Alegre.
O apartamento parecia uma caixa de fósforo. Sentados na sala. A mãe perguntando alguma coisa sobre carreira e dando alguma lição de moral sobre virgindade.
A primeira situação constrangedora foi quando um cachorro desses que parecem um morcego apareceu na sala, a namoradinha abriu a porta do quarto para mostrar o seu “primeiro amor”, o segundo era eu.
Não sei por que cachorros não gostam muito de mim, temos uma aversão mútua, não gosto de passar a mão, de brincar e nem de falar como se ele fosse um ser humano. Aquele resolveu gostar, gostou até de mais, não sei que cheiro sentiu em mim, mas se atracou na minha perna com aquela coisa nojenta dura e literalmente fodeu a minha canela.
- Olha que amor ele gostou de você.
- Ai que lindinho. – disse a mãe da mocinha.
“Sai filho da puta” pensei eu, balançando a perna.
- Ele quer brincar.
- Ele adora brincar. – disse a mãe com um sorriso que me revoltou o estômago.
“Ele vai gozar na minha perna”.
Para evitar mais constrangimento dei uma mexidinha com a perna, era para ser de leve, mas acabou jogando o “lindinho” na parede. Ponto negativo. A velha me olhou atravessado.
Pior foi que o pai da menina chegou e estava aquele clima. Sentou no sofá e ficou me olhando. Após as apresentações por uma infelicidade me deu uma vontade enorme de ir ao banheiro, tentei segurar, mas seria pior, na terceira vez que a barriga fez um barulho de uma bigorna caindo no zinco, pedi licença e fui ao banheiro, que ficava grudado na sala, desses que quando você entra pensa que o arquiteto provavelmente não possuía mãe.
Depois do serviço feito saí. O apartamentinho estava impregnado com o fedor. Sentei na sala novamente com a cabeça baixa. Silêncio mortuário. Constrangedor.
Foi então que ele chegou da rua. A versão infantil do coisa-ruim, do esquerdo, do pata rachada. A bola embaixo do braço, sujo como estivesse em uma mina de carvão. O cabelo espetado (provavelmente para disfarçar o chifre), os joelhos machucados, os cotovelos virados em feridas. Estava comendo alguma coisa ainda, provavelmente roubou de algum amiguinho. A boca estava cheia de farelos. Quando me viu estancou.
Olhou de cima abaixo. Era possível escutar a respiração do cachorro. Virou os olhos e depositou a bola atrás da porta. Pensei ter escapado. Mas de repente ele veio com o golpe fatal:
- Meu deus que cheiro de merda!!! Quem foi que cagou?
O pai da menina começou a rir. Ria tanto que rolava no chão...

Sinceridade III
Eu havia passado um final de semana maravilhoso. Fui para uma pousada no pé de uma montanha, ficar em contato com a natureza, tomar um banho de rio, relaxamento, comida vegetariana e coisa e tal. Estava me sentindo renovado, mais saudável, até mais magro. Pensei comigo, vou chegar em casa e seguir uma dieta a partir de agora. Só comidinha saudável, pizza a noite nem pensar. A noite só chazinho com bolachinhas natureba.
Estava no banheiro público, sozinho ali, mijando e pensando na vida, e escutei aquelas vozes de meninos brincando.
- O meu escudo é mágico.
- A minha espada tem poder três.
- Os meus poderes são muito mais forte.
Estava tão feliz, que resolvi brincar um pouco com eles, falei pela janela, aproveitando que banheiros melhoram um pouco a voz da gente. Com uma voz grossa e a mãe em concha na boca disse:
- EU TENHO OS PODERES QUE SALVARÃO O MUNDO.
Não precisa dizer que os moleques ficaram doidos com a voz que vinha da janelinha.
- Quem é? Quem é?
- Quem ta aí?
- SOU O SENHOR DA NATUREZA, VIM CONVOCAR OUTROS HERÓIS PARA SALVÁ-LA.
Estava impregnado com esse negócio de natureza e ecologia, aproveitei para convidar os pequenos heróis a salvar a natureza. Um deles ao invés de ficar ali de papo com a voz da janela, resolveu dar a volta no prédio e ver quem falava aquelas bobagens.
Dali a pouco, empolgado com a brincadeira, já estávamos criando uma associação para recolher lixo do rio: Os protetores da natureza, ou algo assim. Escuto a voz do peste, digo, do menino:
- É só um gordo maluco falando com voz grossa.
Porra, maluco tudo bem, mas depois de um final de semana comendo alface, gordo foi cruel de mais.

Feliz dia das crianças.

Adeus

Quando chegamos a uma certa idade, poucas vezes paramos para pensar que nossas mães já tiveram trinta anos, já tiveram sonhos, já tiveram seus problemas de quem tem mais de trinta, ou de quem esta fadado a essa condição humana de estar vivo.
Tenho poucas lembranças de minha mãe no vigor de sua juventude, uma morena de cabelos compridos, cara de índia, ancas e pernas fortes, seios fartos e generosos que amamentaram quatro filhos. Parece que na memória ela sempre teve mais de sessenta, sempre foi uma senhora, nunca uma moça.
Lembro dela cantando uma música enquanto lavava louça, era mais ou menos assim:
“É de manhã, vem o sol mas os pingos da chuva que ontem caiu, ainda estão a brilhar, ainda estão a dançar. Ao vento alegre que me traz esta canção... Quero que você me dê a mão vamos sair por aí. Sem pensar no foi que sonhei, que chorei, que sofri”.
Ficou tão cravada na parede das minhas lembranças que escutei esses dias a melodia e sai cantando, sem saber que minha mente conhecia a música, sem saber também que sabia a letra de cor.
Minha mão cantava, cantou em rádio lá nos anos cinqüenta quando tinha quatorze anos. Sempre cantou. Um dia, cheguei em casa e vi minha mãe chorando, chorando muito. Eu era novo, com treze ou doze anos:
- Mãe o que aconteceu? – Perguntei assustado.
Minha mãe me abraçou forte, não era um choro desesperado, era um choro silencioso, estava sentada em um sofá que na verdade era um colchão dobrado que ficava jogado no canto da sala. Morávamos na Avenida Bento Gonçalves em Porto Alegre:
- A Elis morreu filho.
Eu não sabia quem era Elis, claro que já ouvira o nome, já escutara Elis, mas sua importância passava despercebida. Era uma época que eu não ligava muito para isso. Mas, não sabia que minha mãe seria capaz de ficar tão triste por uma pessoa que nunca vira sequer de perto.
Tem um dia da minha vida que foi muito especial para mim. O dia da minha formatura. Havia tantas pessoas que amo reunidas no mesmo local... Provavelmente não esquecerei desse dia até o fim dessa efêmera existência.
Fui incumbido pelo pessoal da sala de organizar as músicas de entrada de cada um. Passaram-me seus CDs com as respectivas música e eu deveria colocar em um único CD, na ordem de entrada e entregar para o cara do som.
Havia também a música para a hora do discurso, dos amores, de Deus, aquela coisa toda, e havia a música para a família. Perguntei qual deveria colocar, me disseram que poderia escolher.
Escolhi uma de Victor Jarra cantada por Mercedes Sosa, uma música pouca conhecida que diz:
“Duerme, duerme negrito... Que tu mama esta en el campo negrito”.
A música fala de mãe e filho, proposital em solidariedade a um grande amigo.
E para eu entrar também escolhi a mesma maravilhosa voz para representar o que eu gostaria de dizer a todos que eu amo e estavam lá:
“Solo le pido a Dios que la guerra no me sea indiferente”.
Ontem, minha esposa dormiu cedo. Eu não conseguia dormir, virei para um lado, virei para o outro e sentei na cama. Sem mais nem menos comecei a chorar. Chorei muito. Muito mesmo. Na solidão das minhas lágrimas mandei meu obrigado a Mercedes, foi então que lembrei de minha mãe. Entendi que não preciso conhecer as pessoas para sentir sua partida.
Basta que elas tenham feito parte da minha história de alguma maneira.
Adios... Mercedes... Gracias.

A invenção da palavra.

Passeava tranquilamente pelos verdes campos perto de sua caverna, ainda não sabia o que era passear.
Andava por ali, meio escondido de um dinossauro.
Também não sabia que o nome daquele bicho gigante era dinossauro, viu muita carne nele, mas não teria como matá-lo, sabia disso, não sabia os nomes, mas não era burro. Possuía um elemento que lhe vigiava a vida, chamado hoje de instinto, aliás, o que nos trouxe aqui, e permite que alguém esteja digitando essas bobagens sobre aquele homem, que ainda não tem nome.
Bem, não tem nome porque não conhecia mais nenhum outro igual a ele, como era só, não precisava dar nome às coisas, inclusive a ele mesmo.
Tem gente que diz que foi a inteligência que fez a humanidade fazer tudo que fez, “chegar onde chegou”. Tenho minhas dúvidas:
- Opa fulano tudo bem?
- Tudo.
- Hoje é o seu dia de perpetuar a espécie.
- Hoje?
- É.
- Porra não dá para ser outro dia, tô indo pegar um cinema.
- Não dá cara, tem que ser hoje, sabe como é, é o rodízio.
- Mas dá algum prazer?
- Prazer? Não sei, ainda não chegou minha vez, só cuido da fila.
- Cara, quer saber, eu não vou! Arranja outro, o resto da humanidade que se foda. Não vou perpetuar merda nenhuma, o filme sai de cartaz hoje.
É... Creio que foi o instinto que nos trouxe aqui.
Mas voltando ao homem-sem-nome-porque-não-conhece-ninguem, estava ele caminhando, quando deu de cara com um outro igual a ele.
Silêncio total. Não falaram nada, afinal nunca precisaram e nem se quisessem ainda não sabiam.
Começou então uma tormenta, tiveram que inventar nomes para as coisas.
Primeiro foi o verbo, antes não havia nada, então o verbo se fez: combinaram dois, depois de muitos hugs, uga, blag, bung. Foram eles: “vamos” e “caçar” (o instinto de novo)
- Vamos caçar um pinossauro?
- O quê?
- Um pinossauro.
Apontou para o animal.
- Mas aquilo é um dinossauro.
Bom, nesse momento inventaram o “não”, e daí para diante não pararam mais.
- Não é.
- Claro que é.
- Não é não.
- É sim.
- Tá bom, que seja, tô com fome. (fome veio antes que o verbo)
Nem tudo foi assim tão tranqüilo, muitas vezes foi difícil, cansados de brigar inventaram o palavrão. Por não possuírem mãe (ao menos conhecida), e nem conhecerem seres de outro sexo, não falavam das mãe e nem da opção sexual do outro.
Simplificaram o vocabulário diferenciando somente os verbos, os substantivos mudavam muito pouco.
Até o dia que apareceram por lá duas mulheres, que também não se chamava assim ainda para eles. Para elas também foi muito difícil conviver com aqueles seres diferentes, primeiro tentaram comê-los, mas eles tinham um cheiro de sovaco muito forte e muito cabelo no peito, desistiram da idéia quando viram que eles também se comunicavam.
- Como você chama isso?
- Dinossauro1.
- Nossa que horrível!! Não, não, vamos chamar de mesa.
- Mesa?
- Sim.
- É, ficou melhor. – Disse um.
- E isso aqui vocês chamam de quê?
- Dinossauro2.
- Meu Deus (já haviam inventado Deus), que sem graça. Nananinanão, vamos chamar de cadeira.
- Cadeira? Bah (um deles era gaúcho) tá ficando muito difícil.
- Com o tempo vocês aprendem, é bem legal.
- E isso aqui é o que para vocês? – A outra mulher apontou para o fogo.
- Dinossauro45.
- Puta que os pariu. Vocês não têm imaginação nenhuma. Vamos chamar de fogo ok?
- Como?
- Fogo. F-O-G-O.
- Três coisas para decorar! Éééééééégua é muita coisa (esse que falou era um sambaquiano do Cubatão).
Por fim as mulheres decidiram colocar a carne no Dinossauro45, digo, no fogo, em seguida deram um nome para aquilo, chamaram de churrasco.
Na primeira vez foi estranho. Alguns dias depois descobriram a pimenta e o manjericão e misturaram com o Dinossauro-Cortado que já se chamava carne, e levaram ao fogo, depois disso inventaram os adjetivos, começaram com expressões básica:
- Humm!!!!
- Hummmmmmm!!
Depois sim, chegaram adjetivos mais apropriados.
- DIVINO. – Disse uma.
- SABOROSO. – Disse a outra.
- Bom pá caralho. – (não preciso dizer quem falou).
Uma das mulheres olhou torto e inventou então os advérbios de intensidade.
- MUITO divino.
- Saboroso DEMAIS.
Um dos caras aproveitou e inventou o “menas” que ainda é usado até hoje, infelizente.
- Muito divido, mas tem que por “menas” pimenta.
Somente séculos mais tarde quando inventassem a maionese caseira com cheiro verde para acompanhar o churrasco é que utilizariam o superlativo absoluto:
- MUITÍSSIMO divino bom pá caralho.
Pois então, como as mulheres inventaram o churrasco os homens saíam para arranjar mais comida.
E faziam isso diretinho. Até que choveu um dia, não saíram, um deles começou a dar palpite no churrasco da mulher. Fechou o tempo na caverna.
- Mal passado.
- Não, bem passado.
- Ao ponto.
- Mais para cima.
- Mais para baixo.
- Bota álcool.
- Ainda não inventaram seu burro.
- Ah, é mesmo.
Discutiram muito e brigaram. Acabou que as mulheres foram embora, acharam os caras um porre. Foi então que eles assumiram o posto de assador e como forma de demonstrar sua tristeza começaram a chorar, beber e emitir sons desafinados, ao nome disso chamaram de sertanejo universitário.
Nessa época inventaram também os pronomes demonstrativos.
- AQUELAS desgraçadas sem sentimento. – chorava um deles.
O outro aproveitou e inventou os advérbios de afirmação.
- DECIDIDAMENTE são umas desgraçadas sem sentimentos.
Para passar o tempo e manter a mente arejada e ocupada (em seguida inventaram os livros de auto ajuda) começaram a inventar coisas. Não pararam mais, inventaram televisão, carro, computador, supermercado, shopping e o trabalho. Inventaram tanta coisa que nem se sabe mais para que servem.
A vida ficou tão sem graça e sem tempo, que nos domingos ficam em volta do fogo, queimando pedaços de carne, tentando encontrar onde foi que erraram.

É geral

- Doutor, não estou mais conseguindo suportar.
- O que acontece?
- Não sei, parece que vem uma dor lá do fundo. Um vontade de sair correndo. Uma coisa amarga... sei lá.
- Hum... Interessante. Faz tempo que você sente isso?
- Faz um pouco, mas agora começou a aumentar.
- Hum... Natural. Aconteceu algo que fez com que começasse a aumentar?
- Não me lembro. Acho que não. Mas lembro de coisas que foram acumulando, acumulando e deu no que deu.
- Que coisas?
- Ah, sei lá, coisas.
- Me diga alguma então?
- Bom, tem a vez que eu reli um texto meu que havia escrito há tempos, e que na época achei bom. Quando li fiquei assustado... Era uma merda.
- Hum... Entendo. Lembra de mais alguma coisa?
- Bom, esses dias fui escrever outro texto, estava inspirado. Abri uma garrafa de vinho, sentei no computador e aquilo fluiu. No outro dia quando fui ler fiquei assustado. Parecia um texto da revista Caras.
- Hum... Apavorante.
- Porra, para de falar “hum” seguido de alguma expressão doutor. Fala alguma coisa para me ajudar.
- Meu amigo sinceramente não sei o que fazer é a primeira vez que alguém me procura por falta de inspiração. Já me procuraram por falta de ânimo, tesão, paciência e até dinheiro, mas inspiração é a primeira vez.
- O senhor não tem nada então para me dizer?
- Não por enquanto não, me desculpe.
- Tudo bem, só devolve meu dinheiro.
- Não posso.
- Por quê?
- Porque aqui não tem nada concreto entende? É tudo na cabeça. Não podemos mudar isso na primeira consulta.
- Você quer que eu volte aqui?
- É. Sei lá... Em uma vez não posso dar um parecer.
- Daí se eu voltar, você vai conseguir me ajudar?
- Cara não sei! Sei lá, não existe nada concreto na psicologia, cada mente trabalha de uma maneira. Psico é igual a alma, logia é igual a estudo. Estudo da alma. O que você acha disso heim? Estudo da alma. Eu nem em alma acredito. Essa merda de vida. Não agüento mais. Queria ter sido marceneiro sabe? Fazer carrinhos, caminhões de madeira, pequenos móveis rústicos entende? Cada móvel seria único. Feitos em um único corte. Mas daí alguém me disse para seguir a profissão do meu pai. Tocar o consultório... Vida do caralho. Não estou mais conseguindo suportar.
- Hum... Interessante. Faz tempo que você sente isso?

Para quem parte

Dani, não estarei aí para me despedir de você.
Ainda bem que nos despedimos antes. Rimos, abraçamos, comemos, bebemos, vimos filmes e fora aquela peça no Guairinha que foi uma porcaria, foi a nossa despedida. Bem, afinal nem tudo na vida é perfeito e talvez seja na imperfeição que encontraremos personas novas para nossas faces cansadas de tudo certinho.
Desejo a você muita alegria nessa oportunidade nova. Quando estiver na Gringa não esqueça que tudo é efêmero.

Desejo que você tome um bom vinho Português no gargalo sentado nas margens do Tejo.

Desejo que aquela francesa que tu anda falando no msn seja bonita, dê para você e que não tenha o sovaco cabeludo.
Mas desejo também que você se sinta bem com qualquer pessoa que for para sua cama, e que quando acordares não tenhas vontade de limpar o corpo.

Desejo que flutues pelas ruas de Lisboa com tua máquina fotográfica e imortalize cada detalhe.
Mas desejo também que em muitos momentos tenha consciência que algumas coisas devem ser guardadas na memória do espírito, não da máquina.

Desejo que vá até a Espanha e assista uma mulher dançando flamenco, e mesmo que a dança seja para turistas, que sintas o peso do passado nos calcanhares e nas castanholas da bailarina. E se dê conta porque chamamos aquilo lá de velho mundo.

Desejo que quando alguém te perguntar:
- O que você faz?
Você tenha coragem de dizer:
- Sou fotógrafo.
Esse é o seu sonho, e seu sonho não pode ser menor que as oportunidades.
Teu sonho... tua cobiça... é de parar o tempo. Talvez para não sentir tanto a vida escorrendo pelos poros em abundância. E sei que como tu é um pão duro, fica pensando, “que desperdício!”, mas ela vai continuar lambuzando o mundo, a você cabe pintar o momento com o olhar único da tua lente.

Desejo que você chore, chore muito de saudades da sua mãe, e que isso te lave a alma. Desejo que ria com novos amigos contando as histórias do teu pai.
Mas desejo também que lembre do conselho que ele sempre te dá: Fique esperto. Seja lá o que isso queira dizer, mas parece algo bom para lembrar.

Desejo que de todas as pessoas que você venha conhecer no velho mundo, ao menos uma, uma apenas, se torne um amigo ou amiga para o resto da sua vida.

Desejo que na virada do ano velho para o novo, você olhe para o alto em um algum segundinho qualquer e lembre que estarei fazendo um brinde para você.

Desejo que viva intensamente, e te tornes um ser humano muito mais humano que já és, e que não te preocupes com coisas pequenas e nem muito com o lado de cá. Que as notícias da América Latina não te assustem, porque tudo já foi bem pior e continuaremos vivendo.

Por fim, desejo que a tua lente capte o mundo, mas faça que ele fique torto, ponha ele de cabeça para baixo e deixe-o enrolado na loucura.
Por que o mundo é perfeito na imperfeição que o enxergamos. Está tudo no lugar que deveria estar. E a arte, essa sim meu irmão, essa é para transgredir. Está aí para mostrar por baixo das pernas, através da bolha de sabão, na lente dos óculos, no ângulo do salto do sapato, em cacos de um espelho quebrado e até no escuro... um outro ângulo disso tudo que chamamos vida.
Que a tua arte seja soco no estômago. Seja falta de ar. Seja medo. Seja denúncia. Seja audácia... E que acima de tudo, te realize.

São os desejos do tio que te ama muito.

Dia chuvoso de pouca inspiração e saudade dos amigos.

- Então um bom dia para todos ok pessoa!! Vamos ter fé nas nossas potencialidades heim? Que nem a gente viu no vídeo. A empresa vai estar apostando em vocês a nível de vencedores ok pessoal? Vocês são muito importantes para nós. Desejo a todos muito sucesso nas vendas de hoje.
Depois de falar começou a bater palmas e todas as pessoas que estavam ali começaram a aplaudir em seguida. Menos uma.
Enquanto todos batiam palmas, ele ficou pensando (enquanto enfiava as mãos no bolso em sinal de protesto): Que misterioso dispositivo existe no cérebro de algumas pessoas que não conseguem ver alguém batendo palmas que logo em seguida começam também?
Estava tal qual cavalo em desfile, nem olhava para o promotor de vendas, que na verdade era um merda qualquer com cara de almofadinha escolhido pela gerente, que era outra merda, para falar aquelas merdas todas decoradas nesses livretos para “profissionais de sucesso”.
- E aí Andi? Gostou da apresentação? O cara é muito bom não é?
- Ô.
- Você não gostou?
- Ôô!
Tinha pena dela, era uma moça legal, mas muito ingênua, acreditava naquela ladainha toda de que “vocês são muito importantes para nós”, mas era a única que conversava com ele. Algumas vezes se sentia culpado por não lhe mostrar o quanto eram explorados, outras vezes pensava que era melhor ficar calado mesmo. Kátia era mãe solteira, suava muito para vender a sua cota e levar dinheiro para casa, todos deviam atingir a temida cota, do contrário... rua (“vocês são muito importantes para nós”).
Ela vivia na pendura, pagava a prestação da casa, a escola dos filhos, roupas, remédios, a prestação do carrinho noventa e quatro e ainda levava os dois moleques no cinema uma vez ou outra. Só não precisava economizar em sapatos. O dono da loja em que eles trabalhavam fazia descontos para os funcionários, normalmente nos sapatos com defeitos, desses que o representante da marca demora dois meses para trocar, então era mais vantajoso vender por qualquer ninharia para o pessoal que era “muito importante para” a loja.
- O cara é fera mesmo né? Tô com uma vontade de vender todos os sapatos da loja.
- Porra que merda Kátia, tu não vê que é pra isso que contrataram esse mala?
- Ai Andi, já vem você com essas idéias de perseguição.
Poucas pessoas falavam com ele, riam as escondidas do seu jeito taciturno e esquisito, riam mais do infeliz nome que sua mãe resolveu lhe dar: Andiara. O nome era em homenagem a um personagem de um livro que ele não lembrava qual era.
Preferia que lhe chamassem de Andi. Ficava nervoso quando faziam piadinhas com seu nome:
- Lá vem a indiazinha! Lá vem a indiazinha...
Gritavam os meninos na escola. Desde aquela época já penava com as gozações, com o tempo acostumou, foi se habituando a esse estranho prazer das pessoas em humilharem as outras, acabou por desligar-se lentamente da raça humana. Vivia isolado.
Andi era um homem alto, quase um metro e noventa de altura, olhos escuros e grandes, o queixo tão fino que parecia um triângulo, as mãos eram gigantescas, o que lhe fazia um excelente vendedor de sapatos femininos. Muitas mulheres só iam comprar sapatos naquela loja para serem atendidas por ele. Passava creme nas mãos e se ajoelhava em frente de cada uma colocando e tirando carinhosamente cada sapato.
Kátia era sua única amiga. Alguns domingos era convidado para almoçar na casa dela. As crianças foram instruídas para não rirem do seu jeito. – Ele é assim mesmo – dizia a mãe para os meninos.
Andi também escrevia contos eróticos para uma revista. Gostava de pensar que seus escritos ajudariam aquele tipo de leitores com alguma coisa diferente. Então tentava despertar-lhes com as palavras uma paixão por literatura além de bundas, para isso lançava mão de metáforas, ênclises, elipses e termos como: “cabeçorra roselácea”, “apontou para ela exuberante”, “abocanhou-lhe voluptuosamente”, “sentiu no âmago do estômago” e por aí vai.
Além disso, tinha uma, digamos assim, queda, paixão, ou admiração, por pés femininos, por isso a sua especialização nesse mercado de sapatos. Diferente de outros homens, sabia diferenciar perfeitamente o que era uma anabela, uma rasteirinha, um tamanco, um clog, um chanel e até um scarpin. Não era nenhum tipo de pervertido, não, não vá pensar isso de nosso amigo. Nem algum tipo de tarado. Simplesmente gostava de pés femininos. Andiara não associava os pés com sexo, aliás, sexo só passou perto quando tinha quinze anos e seu pai lhe levou na zona contra sua vontade.

– Pode deixar que eu cuido dele – disse a moça para o pai, a moça é modo de dizer.

Trancou-se no quarto e ele começou a chorar. Não queria aquilo. A moça, ou dona, entendeu seu sofrimento. Combinaram contar que foi tudo bem e que ele foi o máximo. Como agradecimento ele lhe ensinou quais os sapatos que combinavam com as roupas que ela era obrigada a usar ali naquele cortiço.
Os contos eram somente uma maneira de ganhar um dinheirinho extra, pouca coisa. Começou a escrever na escola, quando na oitava série escreveu para os pés da professora de literatura um soneto em versos alexandrinos, com um final apoteótico escrito em decassílabos. Foi um espanto para professora, que ao contrário dele, era uma pervertida e até assinante de revistas vamos dizer assim, que gostam de mostrar as pessoas de forma natural. Foi ela que lhe inseriu nesse meio. Depois de tentar corrompê-lo em sacanagens desprezíveis. Mas Andi não se converteu. Ao contrário, tomou mais nojo ainda daquilo. Porém ficou com o emprego que ela lhe arranjou de contista. Isso havia acontecido há muito tempo, bem antes dele brigar com o pai sair de casa e trabalhar em lojas de sapato de grife.
Um dia Kátia não atingiu as temidas cotas do mês e a gerente, que dizia que “vocês são muito importantes para nós”, mandou ela para rua sem nem conversar. Andi ameaçou ir embora também, solidário, coisa que não se vê todo dia. Levaria as clientes com ele. Espalharia pela cidade que os sapatos daquela loja davam chulé. Que ela, a gerente, tinha tanta frieira nos pés que chegava a ser nojento. Não adiantou, a gerente que invejava Andi porque as clientes só queriam falar com ele, aproveitou e mandou ele ir embora também.

Pausa pseudofilosófica de sexta-feira com chuva.
Mas a vida é mesmo estranha, tantas vezes nos leva para lugares desconhecidos e situações que beiram o desespero, ficamos atônitos, perdidos, parece que o mundo vai acabar, que não tem saída, que não tem para onde correr. Então vem a tristeza, a maioria das vezes por não podermos fazer aquilo que gostamos, outras por estarmos ao lado de pessoas que não tem nada haver com nossos gostos e idéias, ou ideais. Outras ainda, por parecer que a vida não tem sentido algum (e muitas vezes não tem mesmo). Pode ser que seja tudo horrível mesmo e que estamos aqui a mercê de um jogo de dados sórdido. Ou que exista um tipo de Deus mais sórdido ainda. Ou como acreditam alguns que não exista nada e que depois da vida também não tem nada e que insistimos em ficar aqui para tentar maximizar alguns pequenos momentinhos de alegria, que se somados, não são suficientes para amenizar tanta solidão, tanta dor, tanta miséria. Mas certas vezes é simplesmente bom... só bom, estar vivo.
Fim da pausa pseudofilosófica.

Ao saírem caminhando pela rua, Kátia chorava desesperada, os meninos, a prestação, a comida, a escola, os remédios. Ele também se sentia sem eira nem beira, afinal não ganhava bem com os folhetins, nem com a venda de sapatos. Só queria fazer o que gostava. Nada de mais.
- Você sabe fazer alguma outra coisa Kátia?
- Bem, eu cortava os cabelos das minhas irmãs e primas quando era moça.
Juntaram uns trocados e abriram um salãozinho de beleza. Não precisaram de muito dinheiro. Só um pouquinho de coragem. Ela corta cabelos e ele pinta unhas. Parece que atualmente estão querendo contratar alguém para fazer unhas das mãos. Andi se especializou em pés. Veja você, dizem que tem até fila na porta do salão...

A liberdade dá medo

Eu vi um homem livre.
Fiquei com medo, muito medo.
(alguém me ajude, deu um nó no peito)
Ele me disse que era escritor.
- Quer comprar meu livro?
- Eu gosto de escrever. Sei que gosto. Só nunca escrevi e digo sem pudor.

Eu, sentado, idéias ao vento
Bebendo como um Hemingway.
Fumando feito Quintana.
Só faltava escrever um livro (e o talento).

- Quer um trago? – eu disse.
- Não obrigado.
- Quer pitar?
- Não obrigado. Quer ler meu livro?

- Publicou por qual editora?
- Nenhuma, escrevi o livro e saí vendendo de bar em bar.
(Alguém me ajude, estou tremendo, acho que é infarte)
- E tu mora aonde?
- Viajo de cidade em cidade, conheço todo o Brasil, cada pontinha do mar.
- Mas, escreve quando?
- Sempre... Mas quando alguma idéia coça na cabeça, escolho uma cidade que nunca fui, de preferência no interior, alugo uma casa com flores e passarinhos e lá fico. Até parir um filho novo.
(Por favor, alguém me ajude, não estou agüentando, tirem esse cara daqui)
- Tu escreve sobre o que?
- Sobre o que vier na cabeça. Só preciso amar as palavras... e imaginação.
- Me vende um aí então. Quanto é?
- Menos que duas cervejas.

Anos mais tarde fui escrever pela primeira vez, depois até criei um blog.
O Escritor... Bem, esse nunca mais vi... (ufa!)
Ainda bem, era muita liberdade pra minha cabeça e muita inveja pra eu carregar num peito só.

Dica de filme: A Partida e O Visitante


Duas dicas de filmes para aliviar a semana e alimentar a alma.

O primeiro é o maravilhoso A Partida, filme japonês que trata da vida com uma delicadeza que os ocidentais provavelmente não conseguiriam. Ao contrário do pensamento corrente, penso que o filme fala sobre a vida, vida em abundância. Para se ter uma idéia minha mulher tava dormindo enquanto eu assistia ao filme de madrugada, teve uma cena que ela acordou com o meu choro, é brincadeira. (como sempre não vou dar sinopse, diretor, prêmios e bla, bla, bla, é só uma dica)

O segundo é O Visitante. Atenção, se você gosta dos pensamentos mastigados e não gosta de elipses cinematográficas talvez você não goste do filme. Mas se gosta de música, amor, amizade, de ver gente superando seus medos e da vida real, vai adorar O Visitante.

Para Luíza.

Os nomes carregam uma história.
Tem nome que foi do avô, da avó, tem outro que foi do bisavô, ou da bisavó
Tem nome do cantor preferido do avô, da avó...
Tem uns que foram dados em homenagem a algum artista. Alguém se emocionou tanto com algum filme ou no teatro que quis imortalizar o momento cada vez que olhasse para a filha ou para o filho. Sim, sim, sei que somos mortais, sei também que ao longo da vida muitas divergências, brigas, mágoas, tristezas e decepções podem vir. Mas, se aquele pai e aquela mãe, ao olharem para o filho fizerem um pequeno esforço, se lembrarão do filme, ou da peça e poderão dar um pequeno passeio por este mundo deslumbrante da memória e quem sabe... quem sabe aquietar a alma e respirar um pouco de alegria.
Melhor ainda se o nome carrega a lembrança de alguém que a gente gosta, e esse alguém carrega lembranças de tempos que não voltam mais, mas a gente gosta também. Só a simples recordação daquela pessoa, faz com os pensamentos levitarem até um lugar que não podemos mais visitar com o corpo.
Luíza nasceu já carregada de memórias, sem que nem as tenha vivido.
Já escuta poesia que seu pai lhe fala suavemente ao ouvido.
Já faz a própria mãe dormir com seu cheiro de paz.
É doce e calma. Quase não chora. Dorme muito, talvez, durante o sono anda pelo mundo além desse que vivemos. É bom pensar que busca forças lá para mudar esse de cá.
Seja bem vinda à vida Luíza. Que teu espírito seja inquebrantável diante das iniqüidades que verás ao longo do tempo. Que carregues sempre contigo o sorriso puro de tua mãe, que esteja sempre contigo a serenidade e o amor à sabedoria de teu pai.
Pode ser que teu nome tenha sido te dado somente porque tua mãe gosta da sonoridade dele, não sei, independe, um dia, ela vai te contar dos tempos em que ela estudava, dos tempos em que ela também era jovem, então ela vai falar de uma amiga dela que também carrega esse nome: Luíza. Espero também que tu caminhes pelo mundo com o senso de justiça dessa amiga de tua mãe.

Eis aí minha prece para você Luíza, os meus desejos, que tenhas em abundância: Alegria, sabedoria e justiça.
O resto... Bom... O resto são só conseqüências disso.

Aos meus queridos amigos Fran e Daniel, desejos que sejam tão bons pais quanto são amados e sinceros amigos.

Uma velha relação

Estou sem tempo para escrever, prazos estourando aqui no seviço.
No último sábado (02/08/2009) estive em Porto Alegre, o texto abaixo foi escrito em um folha de papel que pedi para um garçom enquanto meu filho comia batata fritas.

"Porto Alegre, sempre carreguei tuas amarguras nas minhas entranhas.
Dizia-te alegre, mas me entristecia, escarafunchava minha alma e sabia todas as magoas que me obrigava a carregar.
Trazias sombras, más lembranças, erros da juventude, pessoas magoadas, traições de amantes e de ditos amigos.
Minha própria cara no espelho também acusava de ter traído, e muito, por que não?
Chega, chega, não te quero nunca mais, fora de mim tuas memórias e que se expulsem todos os demônios que me trouxeste.
Mas lá no fundinho tinha uma pontinha de “quem sabe eu volto um dia?”.
Tanto que título de eleitor e RG ainda tinham tuas marcas mesmo depois de tanto tempo.

Ah Porto Alegre. Porto Alegre da minha juventude, não é só de ti que tenho saudades, mas de tudo que nunca mais verei, de sonhos que nunca mais sonharei. Amigos que nunca, nunca mais abraçarei, de gente que não mostrarei afeto e nem desprezo.
Sabe aquele vigor da vida que me roubaste? Sabe a minha juventude? Sim, sim, aquela mesma dos anos oitenta, das ruas do Bom Fim, do bar da Lola, do Ocidente, da dança? Levaste tudo embora. Como amava caminhar pelas tuas vias e conhecer pedacinhos teus que poucos sabiam. Mas se foi, amante cruel... E eu também me fui. Virei a cara para não te ver mais.
Troquei título de eleitor – votava na mesma seção de meu velho avô que já se foi também – lembro do velho pegar a bengala e ir se arrastando para votar, havia muito tempo que não fazia aquilo. Na época eu nem sabia por quê.

Troquei RG também, agora eu não tinha mais nada mesmo contigo.
Mas voltei, voltei e caminhei de novo pelas tuas ruas, tomei um refri e comi uma batata frita com meu filho.
Ele queria ir no MacDonalds, eu lhe disse que o pai odiava aquilo e tudo aquilo que aquilo representava: O tal de capitalismo, claro que meu filho nem entendeu, às vezes nem eu.
- O pai vai te levar em outro lugar filho.

Boteco do final da Rua da Praia, gente "louca", poetas, artistas e amigos que eu nunca tive.
Andando pela Andradas parei na frente do antigo cine Cacique e mostrei para meu filho: o cinema que o pai ia quando era jovem. Virou um prédio sei lá de que.
A praça da Alfândega, as pedras portuguesas, os casais nos bancos (de homens e de pedra).
A Praça do Mercado, a gritaria, os bêbados, os loucos, o cheiro da noite caindo lentamente."

Meu filho disse que adorou aquele botequim: - Aqui é bem melhor que o outro do palhaço pai, a gente pode encher a batata frita (molhada de banha) de maionese e tomar refri de dois litros.

Tive que rir.

Quem puder, um dia caminhe no centro de Porto Alegre quando começar a cair a noite.
No último sábado à noite, caminhei pelas ruas dela de mãos dadas com meu filho.
E eu, como um amante arrependido, chorei de saudades de tudo que não viverei nos braços dela... nem verei. De um tempo que nunca mais terei... Que ela me levou... Mas que agora eu perdoo.

Fiz as pazes com Porto Alegre.

Sobre pais e filhas

- Não quero mais discutir sobre esse assunto entendeu? Não quero mais ouvir você falando, fique quieta e me obedeça... Eu sou seu pai.
- Não fico. Tenho tanto direito quanto você de falar. Ainda mais que você está errado.
- Posso até estar errado, mas eu sou seu pai e você não vai sair para aquele lugar e fim de papo.
- Mas pai, todas minhas amigas vão. Você nem conhece o lugar.
- Não tem nada de mais... Não me irrite mais do que já estou. Você não trabalha o dia inteiro em um escritório para saber o que eu estou passando entendeu? O dia que você trabalhar e se sustentar não vai mais precisar me obedecer. Mas por enquanto, enquanto você comer a comida que eu ponho na mesa vai me obedecer por bem ou por mal entendeu?
- Eu não quero a sua comida, não quero nada seu... NADA.
Foi para o quarto batendo a porta com força. Ligou o som bem alto e deitou-se de bruços na cama, a dor parecia que explodiria sua alma em mil caquinhos.

O pai nunca havia batido nela, nem nunca havia gritado. Sempre calmo e pacato, como se carregasse nas costas a tristeza do mundo num saco enorme. Era um cara quieto, quase não falava, os familiares achavam ele um quietão sem sal, um cara morno, acostumado com a vidinha de sempre, sem amigos, sem grandes expectativas pela vida. Ela era filha única e desde que se lembrava seu pai não lhe dava muita bola, conversava o necessário, dava bom dia, boa tarde e boa noite, se quisesse alguma coisa mais séria mandava recado pela mãe dela.

Uma vez, quando era pequena, escutou atrás da porta alguma tia fofocando que ele sempre quis foi um filho, um companheiro para ir ao estádio com ele, tomar uma cerveja no final do dia:
- Você vai ver mulher, quando ele ficar mais velho nós vamos juntos lá no bar do Junqueira, vou apresentar ele pra todo mundo. Vai ser meu amigo... Você vai ver.

Era assim que ele sonhava. Mas, quando ela nasceu ficou mais calado do que já era, o casal não poderia mais ter filhos. Continuava sem amigos, ao menos era o que a família pensava.
Os cunhados invejam sua capacidade de permanecer sóbrio. Nas festas da família todos começavam a falar suas bobagens, vomitar, discutir, falar alto, essas coisas de bêbados e ele lá impávido, firme e quieto. Como se fosse um observador e não alguém que fizesse parte daquele grupo. (parecia que sentia pena dos outros)

Saber que o sonho dele era um filho e não ela afastou-os mais ainda.

Nesse dia, era a primeira vez que falava com ela daquela maneira. Não se importava se ela saísse na noite com as amigas, nunca falou nada, algumas vezes até foi buscá-las, ela e as amigas na saída das festas. Levantava de madrugada sem falar nada e ia de pijama com os olhos remelados. Nunca reclamou, aliás nunca falou nada, ou melhor, dizia boa noite quando as meninas entravam no carro, e só. Ela agora estava no primeiro semestre da faculdade, e mais distantes ainda haviam ficado um do outro. Não entendia porque ele foi encasquetar com aquele lugar que ela queria ir, ainda mais agora.
- Que merda – dizia para as paredes andando pelo quarto – nunca me deu bola e agora vem dar uma de puritano.
Andou de um lado para outro até desistir da idéia de insistir e ir dormir.

Na faculdade ela aprendeu a fumar baseado, tomar cerveja e jogar truco entre uma aula e outra. O baseado largou na segunda semana, ficava rindo a toa demais, e a combinação com a cerveja não lhe fazia muito bem. Optou pela cerveja, aliás, talvez por alguma coisa genética, possuía a mesma capacidade de permanecer sóbria que o pai, os marmanjos que davam em cima dela dormiam na mesa ou caiam pelos cantos e ela ia embora sozinha tranqüilamente. Sua fama ganhou os corredores da academia, até que arranjou um parceiro tão bom quanto ela no copo.

Rones era um cara muito simpático, alto, magro, com dentes tão brancos que parecia sair de um comercial de pasta de dente, muito estudioso e excelente filósofo de botequim, além de exímio jogador de sinuca e porrinha. Ficaram muito amigos, desses que não se largam nunca, não namoraram porque sabiam que ia estragar sua parceria, afinal, dizem que “onde se come o pão, não se come a carne”. É que Rones ensinara a moça a jogar truco, se tornaram tão bons no negócio que sentavam no bar depois da aula e só saiam quando o último ônibus estava partindo ou não agüentavam mais tomar cerveja, todas pagas pelo pessoal que perdia para eles, cada rodada valia uma cerveja. Não que ele não tivesse pensado no assunto, ela era uma mulher que chamava atenção, mas sua simpatia e franqueza expulsaram essas idéias rapidamente.
Quando jogavam não faziam muito escândalo como a maioria dos jogadores de truco, possuíam sinais para todas as cartas do baralho e uma frieza desconcertante para os adversários. Várias duplas tentaram vencê-los, alguns mais machistas se revoltavam com o fato de uma quase menina ser melhor que eles nas cartas e no trago.

Um dia ele chegou à universidade com uma proposta:
- Vamos participar de um campeonato.
- Sério? Legal. Vai valer o que?
- Duzentos reais, duas caixas de cerveja e um porco.
- Nossa, sou vegetariana tu sabe, mas aceito a cerveja e a metade do dinheiro.
- Beleza então, sábado eu passo lá na tua casa pra te pegar.
No sábado ele passou lá e chamou por ela, quando saíam cumprimentou o pai dela que também estava de saída e grunhiu algo que ele não entendeu se era um “boa tarde” ou um “tudo bem”, o pai foi para o ponto de táxi e eles foram para o ponto de ônibus. No caminho do bar onde aconteceria o campeonato iam rindo e combinando alguns sinais novos, ele dizendo que não seria a mesma coisa que o bar da universidade:
- Os caras são bons, não dá para vacilar.
Ele estava com os vinte reais da inscrição. Ela com dez, o que daria para três cervejas para os dois e um pacote de amendoim, quando esse dinheiro acabasse, só poderiam tomar outra no final do campeonato e isso se ganhassem, se não, ainda por cima voltariam para casa a pé.
Ao chegarem ao bar foram se inscrever. Fora o fato dela ser a única mulher no recinto, o que mais chamava a atenção era o próprio bar, que existia há mais de quarenta anos no centro da cidade. Atrás do enorme balcão de madeira maciça havia uma enorme quantidade de garrafas de cerveja de todos os gostos, estilos e procedências que se exibiam nas prateleiras. Em uma mesa mais afastada um grupo de uns seis ou sete homens escutavam o que estava sentado ao centro falando alto, contava uma história que parecia engraçada visto a cara dos caras. Ela teve que arregalar os olhos para ver melhor, suas pernas ficaram tremendo.
- Como é o nome desse bar Rones?
- Acho que é bar do Junqueira. Sabia que nos anos setenta ele foi fechado pelos militares? Nas paredes havia fotos da...
- Puta que pariu, olha lá o meu pai!
Era mesmo o seu pai. Naqueles dois minutos que ficou ali olhando aquele quase estranho, viu seu pai falar mais do que em toda a sua vida.
Rones também se espantou, conhecia o cara há alguns meses e nunca imaginou ele daquela maneira, parecia um zumbi em todas as vezes que o viu, agora estava ali, charuto na mão, chapéu panamá, um copo de conhaque de um lado, um de cerveja do outro e falando pelos cotovelos. Quando ele viu a filha no balcão, fez um aceno com a cabeça como se fossem conhecidos distantes... e só.

Haviam doze duplas inscritas, incluindo os dois. Na hora de começar o campeonato, iniciou-se uma celeuma com alguns velhos freqüentadores, o caso era se a moça poderia participar ou não, uns gritavam que o bar era tradicional, que mulheres só deveriam ir ali à noite, durante o dia o recinto era exclusivo dos antigos freqüentadores, o pessoal da velha guarda.
- Porra Junqueira, o quê que vai virar esse ambiente se qualquer dupla puder jogar? - gritava um mais exaltado.
- Eu não venho mais aqui. – dizia outro.
- Tava na hora disso acontecer - dizia aquele.

O tal do Junqueira parecia ter parado no tempo, a cara tinha tantas rugas que se tinha a sensação de que a qualquer momento sua pele começaria a derreter, cabeça completamente branca, andava devagar e algumas vezes não servia cerveja artesanal para qualquer um, olhava para a cara do sujeito e lhe dizia na lata:
- Essa cerveja não é para você meu filho, toma uma Skol que você vai gostar mais.
- Mas eu tô pagando e quero aquela.
- Mas eu sou o dono do bar, se não quiser vá procurar outro lugar.
O cara tomava a Skol e ia embora sem entender nada.
- Pecado desperdiçar uma cerveja dessas com um cara de bocó desses...
Junqueira tinha apesar de tudo olhos vívidos e sabia tudo que acontecia no bar. Todas as despesas de cada mesa na cabeça, até o que cada um tomou ou comeu.

Depois de muito discutirem o Junqueira gritou para a mesa lá do canto que continuava sua conversa alheia ao resto do bar:
- Ô Valmocir! O que tu acha disso aqui.
Valmocir era o pai da moça.
- Que foi?
- Chega aí.
Quando ele se levantou o bar todo ficou quieto, respeitavam o cara. Ela ficou pasma.
- Fala Junqueira.
- A moça aqui veio pro campeonato e o pessoal não tá querendo que ela jogue, tão falando da tradição do bar e coisa e tal.
Valmocir estava com o charuto no canto da boca, ajeitou o chapéu para trás, olhou para a moça e depois percorreu os olhos pelos homens que esperavam seu veredicto. Olhou novamente para a moça e encarou seus olhos a ponto dela baixar a cabeça.
- Tá valendo o que Junqueira?
- Duzentos reais, duas caixas de cerveja e um porco.
- E tu vai fazer o que se ganhar menina?
- Tomar a cerveja.
- Aonde?
Ficou em silêncio um pouco.
- Aqui no bar mesmo.
- Hahã... certo, certo... – deu uma coçada no queixo, olhou de novo aquela menina que segurara no colo há dezoito anos atrás – e você acha que sabe jogar bem?
- Não acho, eu sei.
Mais uma coçada no queixo.
- Deixa a menina jogar Junqueira. E vocês aí deixem de ser atrasados e cagões.
Jogaram e ganharam, em uma das partidas deram de zero numa dupla de macacos velhos, que só gritavam e batiam na mesa.

Só então Valmocir se aproximou. Durante as partidas continuou na mesa do canto, que ao que parecia era dele e de seus amigos, a mesa agora contava com dois violões, um cavaquinho e um pandeiro de couro. Além da voz do Valmocir que puxava sambas de Cartola, Yvone Lara, Monarco e Nelson Cavaquinho.
- Ganhou então? Parabéns.
- Pois é, foi tranqüilo. Uma mulher deixa os caras nervosos.
- E a cerveja?
- Quer tomar?
- Pode ser. Posso dividir com alguns amigos?
- Claro.
Chegando na mesa, falou:
- Pessoal, essa aqui é minha filha, ela vai tomar uma cerveja com a gente aí.
Conversaram como velhos amigos, a moça perguntou se ele gostava de Noel, o que fez ele chamar a atenção dos amigos falando do pedido da menina. Já era quase oito da noite quando disputaram uma partida de sinuca valendo uma dose de Napoleon. Lá pelas tantas, quando ela matou a oito na caçapa do meio de tabela ele perguntou:
- Você gosta de futebol?
- Gosto.
(...)
- O que você vai fazer no Domingo?

Humano, demasiado humano





Algumas observações sobre essa foto:
- O cara pode ser o homem mais blá-blá-blá do mundo, é um mero mortal e gosta de bunda.

- Todo mundo falou da secada do Obama, ninguém comentou a cara do Sarkozy que deve estar pensando:
"A minha é muito melhor", "Parece a minha", "Tua mulhé vai te mete a porrada" (aceito sugestões)

- Se fosse o Lula já teriam dito que "isso é uma... vergonha". Como é deusBama a moça somente "chamou a atenção".

- Quando a moça fizer dezoito anos será convidada para posar para alguma revista de putaria.

- Quando voltar para o Brasil a moça ficará famosa por quinze minutos.

- No tempo que estou postando isso aqui essa foto já ficou velha no turbilhão de informações da internet. (ah, já deve existir uma comunidade no Orkut para a moça)

Fragilidade humana

Claudinha era baixinha, coxas grossas, cabelo todo enrolado, andava sempre de bata e calça jeans, ou uma jardineira que poderia andar sozinha se ela deixasse. Para ela os anos setenta nunca haviam terminado.
Naquele dia estava chorando.
Possuía um coração magnífico, chorava por qualquer coisa, bastava algum olhar mais duro na sua direção que ela caia no choro. Chorava escutando música, vendo filme, lendo e até se visse algum casal se beijando na rua chorava também:
- É de inveja Claudinha?
- Não, não... É que é acho muito lindo gente se beijando. A humanidade é muito linda.
Era dona de uma fé na humanidade que seria capaz de levantar a moral de qualquer filósofo depressivo pós-alguma-merda-qualquer.
Da mesma maneira que iniciava um choro também terminava de rompante, sem vergonha nenhuma de mudar de idéia no meio das idéias.
Certa feita, estavam todos os amigos no enterro de um companheiro que havia passado desta para melhor, chovia aos cântaros. Chuva, guarda-chuvas, cemitério, velas, enterro... Combinação perfeita para choro. Até que alguém resolveu olhar para um outro enterro que acontecia umas oito covas adiante:
- Õ bixo... Aquela lá chorando naquele enterro não é a Claudinha?
Após um exame mais acurado começou um zum zum zum.
- O quê que a Claudinha tá fazendo lá?
- Coitada, dois amigos sendo enterrados no mesmo dia.
- A Claudinha vai desabar, do jeito que é sensível.
- A Claudinha isso...
- Vai se acabar de tanto beber agora. Vive bêbada (essa não gostava muito dela)
- A Claudinha aquilo.
Até que alguém resolver caminhar até a outra cova e falar diretamente com ela:
- E aí Claudinha? Tudo beleza? Quem é o seu amigo?
- COMO QUEM É.... ONDE ESTÁ TODO MUNDO?
E chorava.
- Tá todo mundo lá olha. No enterro do nosso amigo.
Apontou e ela ficou um tempo quieta. Daí estancou o choro bruscamente, limpou as lágrimas e disparou:
- Caralho, bem que eu vi que não havia ninguém conhecido aqui. Tava xingando todo mundo de desumanos e insensíveis.
Caminharam até o enterro do amigo em comum, claro que antes ela se despediu de umas duas ou três senhoras, as quais chorou abraçada momentos antes, falando de um morto que nunca havia visto na vida.
Foram caminhando e rindo um pouco e ao chegar lá ela começou a chorar novamente, tal como se tivessem lhe apertado um botão. Coisa incrível.

Mas nesse dia o choro era por outro motivo.
- Para de chorar Claudinha, pô, foi brincadeira.
- Ah tá, mas para que fazer isso né?
- Foi só brincadeira Claudinha.
Ela acendeu um cigarro, e deu uma tragada profunda, cigarros eram uma extensão do corpo dela, sempre havia algum na mão. Já havia tentado para de fumar umas trinta e cinco vezes. “Preciso parar”, dizia ela, essa porcaria me tira o tesão. Uma vez comprou uns chicletes de nicotina para parar, alguém disse que era ótimo. Resultado: Ela mascava o chiclete e fumava um cigarro em cima, viciou em chicletes de nicotina.
Depois de conseguir largar o vício dos chicletes teve um tempo em que começou a enrolar cigarros. Comprou uma bolsinha, tabaco importado, o papel fino para enrolar e até um isqueiro bonito para acender cigarros enrolados, feitos a mão.
- Pra que isso Claudinha?
- É que eu tive uma idéia. Como o cigarro normal já tá pronto eu acabo fumando muito, daí agora só compro assim. Até eu enrolar e tudo mais perco a vontade entende?
- Ah... É, pode ser que dê certo.
- Vai dar sim, você vai ver, vou diminuir um monte pelo menos.
Umas duas semanas depois:
- E aí Claudinha? Conseguiu diminuir o cigarro?
- Não... Em compensação tô enrolando rápido pra caralho. Levo menos que dez segundos para fazer um, que ver?

Mas voltando ao dia do choro, ela acendeu um cigarro normal (já havia parado de enrolar), pensou um pouco e falou:
- Brincadeira idiota, onde é que tem graça humilhar outra pessoa?
- Ora Claudinha, ninguém humilhou ninguém, só foi uma piadinha.
- Piada mais idiota...
- Eu vi em um programa de humor, só você que não acha graça.
- Eu juro que se um dia encontrar um desses comediantes na rua eu vou falar umas boas verdades para esses filhos da puta.
- Que comediantes?
- Esses babacas, Chico Anysio, Jô Soares, Didi, Casseta e Planeta, Tom Cavalcante esses caras todos...
- Mas Claudinha! Esses caras são os melhores comediantes da televisão.
- São um bando de idiotas filhos da puta isso sim, foram eles que colocaram esses estereótipos todos na TV. Foram eles que ajudaram a criar muitos preconceitos que a população nem sabe que tem.
- Mas Claudinha você nem assiste TV.
- Por isso mesmo.
- Cara, esses caras são feras, estão aí há mais de trinta anos.
- Pois pra mim eles que começaram com essas piadinhas que eu tenho que agüentar agora: tem piadinha pra pobre, pra negro, pra bêbado, pra português, pra judeu, pra muçulmano, pra mulher, mulher burra, mulher feia, mulher que fala, que não fala, que não trepa, que trepa demais... Não aguento mais.
- Tá, mas se a gente não rir dos outros vai rir do que?
- Ora, vai rir de... de... da... Ora sei lá porra, mas não é possível que só se possa rir do outro.

Pouco mais que meio século antes disso, iniciava a carreira de Charlie Chaplin, alguém que fazia com que rissem dele. Porém, Chaplin também fazia com que as pessoas se enternecessem. Rindo mostrava ao mundo suas mazelas: a fome, a bestialidade da guerra, o homem virando máquina. No filme Tempos Modernos, tem uma cena em que ele está caminhando na rua e por acaso encontra um pano no chão, pega o pano, olha e segura, o filme é preto e branco, mas dá para imaginar que o pano é vermelho. De repente atrás dele surge uma multidão de operários em greve, ele acaba marchando na frente de todos. A cena é impagável.

Hoje me dei conta que faz tempo que não dou uma boa risada, uma boa gargalhada de chacoalhar o corpo todo, de ficar vermelho, de encher os olhos dágua, de quase ficar sem ar. Fiquei triste.

Rir de si, rir das próprias rugas, da barriga, dos desastres, das ilusões... da fragilidade humana. Que bom seria...

Desgraça que vende II

O pai está esborrachado no sofá em frente à televisão assistindo o Jornal Nacional quando entra o filho:
- Pai.
- Humm.
- Paiê.
- Hããã.
- PAI.
- QUE É PORRA?
- Eles vão descobrir se a Air France é culpada ou não pela queda do avião?
- Não filho. Não vão investigar mais.
- E como eles conseguiram?
- Pessoal da Air France mandou matar o Michael Jackson.
- Como é que é?
- Nada não filho, vai brincar vai.
Volta a olhar para tela como que hipnotizado, naquele dia já havia visto a infância do Michael Jackson, seu casamento, suas plásticas, médicos, psicólogos, tarólogos, videntes e pais de santo falando sobre o pop star. Naquele instante, depois de cento e vinte sete vezes (havia contado), assistia novamente ao clip de thriller...

Dica de filme: Estômago



Um dos melhores filmes brasileiros que já assisti, que aliás, estão ficando cada vez melhores. É o primeiro filme que vejo mostrar os “moradores” de um presídio como seres humanos comuns, gente cheia de dúvidas, de medos, de manias, que cometeram algum erro, mas nem por isso viraram monstros que pensam em matar e roubar 24 horas por dia.
Para quem, como eu, gosta de cozinhar o filme é uma delícia. Fique atento ao chapeuzinho do cozinheiro que aparece no canto da tela de vez em quando, nessa hora basta clicar em menu do controle remoto e ir direto para a receita do prato que está sendo feito no filme.
O ator João Miguel, aquele mesmo de "Cinemas, Aspirinas e Urubus" está fora de série, excelente. A gente fica torcendo pelo cara o tempo todo, em uma altura do filme parece que ele é nosso amigo.
A aula dele sobre o queijo Gorgonzola para os companheiros de cela vale o filme.
Ah, tem um detalhe, o filme é filmado em Curitiba, para quem quer matar a saudades, aparece até a Cruz Machado que já andou nesse blog em outra postagem.

Resumindo, um filme que vale muito a pena ver.

Dica de filme: Salvador


O filme conta a história do anarquista Salvador Puig Antich, morto em 1974 na ditadura de Franco na Espanha.
Prepare o estômago... Não, não... Não tem sangue e coisas do tipo. O estômago porque o filme nos dá um soco quando vemos transbordar da tela o amor entre Salvador e suas irmãs nas horas mais difíceis, quando vemos a força desse jovem estudante querendo falar o catalão e sendo proibido, um amor gigantesco pela raça humano tentando livrar os oprimidos de seus opressores, as reflexões e as mudanças do truculento guarda que toma conta de Puig, a relação dele com seu pai, enfim, tem de tudo no filme.
A cena em que ele fica sabendo do golpe de estado no Chile vale o filme.
O ator é aquele mesmo que fez Edukators, Feliz Natal e Adeus Lênin. (Daniel Bruhl)
Resumindo, um filme que vale muito a pena ver.

ps: Lembrei que quando iniciei o blog queria escrever sobre filmes também, mas não vou colocar todas aquelas coisas de gênero, site, diretor, produtora e bla, bla, bla, ah, e muito menos resumir o filme contando suas melhores partes, é só uma dica.

Tem dia que a noite é f...

Estava mais ansioso que anão em comício, não via a hora de chegar a noite para sair com a garota dos seus sonhos. Nada menos do que seis meses de muita lábia, muita paciência, muita “engolição” (palavra nova) de sapo. Namoravam há uma semana e por sorte – ou um tremendo azar – estavam no dia dos namorados. A noite era uma criança, ou “the night is a children” como ele gostava e costumava dizer.
- Então tá “mozinho”, te pego as sete então?
Traduzindo mozinho: Palavra secreta usada por este casal para se designarem mutuamente, por alguma lei da natureza que Rousseau esqueceu de mencionar o ser humano inventa uma palavra para chamar a pessoa que atualmente está ao seu lado, normalmente no diminutivo, como: mozinho, benzinho, paizinho ou o abominável cheirinho, ou cheiro, mais utilizado no norte de Santa Catarina.
- Tá bom, te espero as sete então. Beijo mozinho. Não vejo a hora de estarmos juntos.
- Eu também mozinho, não vejo a hora.
- Então tá, até a noite.
- Então tá, até a noite.
(...)
- Desliga mozinho.
- Desliga você.
- Não desliga você.
- Não, você.
- Ah mozinho desliga vai, você sabe que eu não consigo.
- Tá bom, eu desligo. Beijo mozinho, te pego as sete então?
- Tá bom, te espero as sete então. Beijo mozinho. (conversa do caralho que nem quem conta a história agüenta)
Ele desligou e esfregou as mãos uma na outra como quem não agüenta mais de nervosismo, olhou para cima e sentiu que finalmente alguém havia olhado para baixo. Foram cinco meses de lero-lero, mais um mês de beijos, arretos e passassão (mais uma palavra nova) de mão. Até que finalmente deixaram de “ficar” e oficializaram o namoro. Naquela noite, pela primeira vez ela aceitara passar para outra fase, iria com ele em um motel depois de jantarem em um restaurante bem bonito. Era um sonho.
O coitado já não agüentava mais, andava cabisbaixo, xingando todo mundo no trabalho, as bolas inchadas, dores de cabeça, tonturas, mau humor acentuado, mas finalmente chegou o dia, alguém havia olhado para ele lá de cima.
Mandou lavar o seu fusca oitenta e dois, motor mil e quinhentas cilindradas que era o seu maior patrimônio. Até cera passaram no fusquinha. Comprou roupa nova, perfume novo, doze camisinhas, foi até no pedicuro para lhe tirarem o cascão dos pés. “The night is a children” repetia. E o dia passava lento, se arrastando, o pessoal no escritório teve que lhe chamar a atenção várias vezes durante o dia, pois o coitado começava a imaginar com “mozinho” cenas que fariam o diretor italiano Tinto Brass se sentir um lixo. Mas, alguém olhara por ele lá em cima, finalmente o dia chegou ao fim.
- Oi mozinho – disse ele.
- Oi mozinho – disse ela.
Ela estava belíssima, caminhou da porta do prédio até a porta do carro e ele sentiu o pau bater na cinta assim. Vestia um vestido cor de creme, um pouco acima dos joelhos, era de um tecido parecido com um cetim bem mole que lhe acentuava as curvas, sapato de salto quinze, fino, marrom, que fazia as panturrilhas da perna saltarem enquanto andava. Leve perfume floral, brincos de argola, cabelos soltos, unhas pintadas de café acetinado, decote leve mas o suficiente para deixar a sua imaginação aventurar-se por seu colo firme. Era a glória, alguém havia olhado para ele lá de cima: The night is a children: gritava em pensamentos.

- Puta que merda, olha o que esse banco fez com o meu vestido.
O couro do banco do fusca estava rasgado.
- Desculpa mozinho.
- Vou ter que trocar de roupa.
- NÃO.
- Calma, não grita.
- Desculpa mozinho, mas o restaurante tem reserva. Foi só um fiozinho mozinho.
- Não importa, eu quero estar bem bonita pra você, vou trocar.
- Mas...
Ela saiu e voltou dali a meia hora, além de tudo começara a chover forte na cidade, era bom saírem dali rápido antes que o centro alagasse. Ela continuava linda, por garantia trouxe uma toalha e colocou no banco do fusca. Saíram pelas ruas da cidade e caíram no primeiro engarrafamento, demoras, buzinas, elogios às mães dos motoristas ao lado e muitos bufos depois:
- Calma mozinho.
- Já sei, vou pegar um atalho que eu conheço, vamos desviar desse engarrafamento.
Entraram no tal do atalho, pegaram uma rua que quebrou em outra, em outra até caírem em uma rua de barro de um bairro desconhecido, buraco pra cá buraco pra lá, chacoalha daqui, chacoalha dali, até que o fusca passou numa enorme poça de água. Quem já teve fusca sabe que todos, TODOS, saem de fábrica com uma recomendação: Depois de alguns anos o chão deverá apodrecer. Talvez o fabricante até passasse um produto para isso. Com nosso amigo não foi diferente. O enorme buraco apodrecido pela ferrugem ficava bem embaixo do banco do carona. Como resultado o fusca virou um chafariz, só do lado dela. Dessa vez foi pior.
- Calma mozinho.
Ela nem havia falado nada, mas o seu rosto não era muito agradável, o vestido todo molhado, os cabelos pingando aquela água barrenta:
- Vou ter que trocar de roupa.
- NÃO.
- Como não, quer que eu vá assim no restaurante?
- Podemos ir direto para o motel o que você acha?
- NÃO.
Voltaram para a casa dela, no caminho de volta se perderam no tal atalho, ele não quis parar e pedir informações, o que gerou breve atrito entre os pombinhos. Alguém me disse alguma vez ou li em algum lugar que são necessários milhões de espermatozóides para fecundar o óvulo porque nenhum deles é capaz de pedir informações. Quarenta e cinco minutos depois chegaram ao seu destino. Ela subiu e demorou mais meia hora. Em compensação a chuva parou, alguém havia olhado para ele lá de cima.
Bem, é melhor pularmos o caminho até o restaurante e a descrição da roupa dela. Chegaram sem maiores incidentes ao local do jantar, sendo que nada aconteceu que seja digno de ser relatado aqui, visto que isso é um blog e não um romance, e que muitos são impacientes com textos muitos longos.
Acabaram ficando na ala de fumantes – que ela detestava – a reserva havia vencido, mas não tinha problemas, um mesinha lá no canto do restaurante perto da porta do banheiro foi colocada atenciosamente pelo maître.
Drinks para cá, drinks para lá, entradas de pastas de espinafre, molho chateabriand, queijos, pãezinhos, de repente, por essas infelicidades do destino e da natureza, uma gigantesca vontade de cagar em nosso amigo assola de rompante o delicioso colóquio de nossos apaixonados. O barulho da barriga foi tamanho que a mesa ao lado olhou para eles com cara de desdém.

Ele não queria deixar a moça sozinha, mas era inevitável. Se segurasse mais, um acidente pior poderia acontecer. Lá se foi correndo, adentrou o recinto apressado e a luz acendeu sozinha no lindo banheiro, entrou na casinha e não deu tempo nem de limpar o vazo, acabou sentando na urina de alguma boa alma que mijou com a tampa baixada. Mas tudo bem, ao menos havia papel, fez tudo que tinha que fazer com tanto arrojo que a água molhou-lhe toda a bunda. Durante aqueles minutos ficou pensando na vida e na noite que lhe esperava logo mais quando fossem para o motel. Devaneava sobre tudo que faria com o mozinho. O tempo passou um pouco, quando terminou e ia pegar o papel algo inusitado aconteceu: a luz apagou. Lembrou-se que não havia interruptor no banheiro, era daquelas invenções modernas, acendia com o movimento, porém, o sensor ficava fora da “casinha”.
Triste situação de nosso herói, a bunda toda suja, no escuro, esperando uma viva alma ter vontade de entrar no banheiro e “fazer a luz”. Acenou as mãos, jogou pedaços de papel por cima da porta, gritou (não sei por que) e finalmente tomou coragem, não tinha jeito, tinha que sair. Abriu a porta e saiu de lá andando que nem pingüim, com as calças arriadas, todo cagado. Não seria preciso dizer algo tão nojento, mas algumas gotas de água suja, que tremiam de suas nádegas caíram nas cuecas e na calça. O homem que entrou ficou olhando aquele ser curvado, com as calças nas canelas, aquilo durou essas frações silenciosas de tempo que é melhor ninguém falar nada. Voltou para a casinha e quando foi pegar o papel, limpar a bunda e finalmente sair dali, o celular que estava no bolso da camisa caiu no vaso. Desesperado meteu a mão no vaso, nesses reflexos próprios de esportistas.
Saiu dali desolado, lavou a mão várias vezes mas parecia que haviam cagado no mundo todo.

Sentou ao lado da sua amada que lhe disse:
- Por que demorou tanto?
Ele olhou para ela triste, estava a ponto de chorar.
- O que foi mozinho – disse ela pegando suas mãos e beijando.
Ele começou a chorar.
- Mozinho, não agüento mais de vontade, vamos sair daqui?
- Vamos mozinho. Vamos para onde você quiser agora - Nunca havia visto ninguém chorar de vontade de transar com ela.
The night is a children. Riu sozinho, alguém havia olhado para ele lá de cima.

Digamos que fora os três motéis lotados que tentaram entrar e não conseguiram, nos reservamos o direito de proteger a sorte de nosso querido amigo dos mais afoitos por desgraças alheias. Principalmente aqueles vibram quando alguém passa por situações tão tristes como é a do nosso querido herói, que nessa altura do campeonato já pensou duas vezes se o pau iria subir ou não (o que é um perigo... não o subir, mas o pensar). Livre de nós aqueles que sem compaixão, acabam fazendo valer o velho adágio que “pimenta no cú dos outros é refresco”. Para esses, pedimos a compreensão e a gentileza de olhar para o alto e rogar para que alguém olhe por aqueles menos afortunados.
- NOOOSSA, tem banheira mozi!
Nesse caso, mozi, não foi erro desse que escreve, mas sim uma abreviatura do diminutivo.
- Vamos encher mô.
Enquanto a banheira enchia, começaram a dançar, se beijaram, tiraram a parte de cima de suas roupas e os sapatos. Abriram a champanhe que ele roubara da casa da avó. Devia estar ótima pensava, foi dada pelo coral da igreja no natal de oitenta e nove. No primeiro gole o gosto de vinagre fez ela passar mal que botou a comida toda pra fora. Deitou-se na cama e pediu para ele esperar um pouco que ela não estava bem. Nosso herói, apesar de estar subindo pelas paredes era um gentleman. Esperou ao seu lado beijando lentamente seu rosto rogando que alguém lá em cima olhasse por ele e o cupido flechasse sua amada não com a seta do amor, mas do tesão.

Lá pelas tantas começou a ouvir barulho de água, lembrou da banheira, quando saiu da cama meteu o pé na água, água por todo lado, no sapato, na camisa, sua carteira que estava ao lado do sapato boiava como uma nau sem rumo. Lá foi nosso querido e a essas alturas desgraçado amigo secar o banheiro, a mulher da recepção estranhou o pedido de mais seis toalhas, mas, sabe-se lá o que acontece em quatro paredes por aí não é mesmo?
Duas horas depois terminou de secar o quarto, as mãos quase em carne viva de torcer toalhas. Sua amada melhorou e a coisa começou a esquentar. Pediu uma champanhe decente na recepção, foram para a banheira aos beijos, a essas alturas ela estava só de calcinhas, ele tirou a calça e ela disse:
- Que cheiro de merda.
Lembrou do banheiro do restaurante:
- Deve ser o ralo que entupiu com toda essa água.
Tirou a cueca e jogou fora. Apareceu aquela coisa enorme voltada para cima, contrariando como dissemos esses que se comprazem na desgraça alheia, alguém lá em cima olhava por ele. Ela se aconchegou nele toda fogosa: The night is a children.

Quando ele entrou na banheira resvalou e caiu de costas, bateu com a cabeça na parede e por essas coisas do destino enfiou o dedão do pé naquele negócio por onde sai a água, perdeu a tesão e junto com ela a unha e um pedaço do dedo. Sangue pra tudo que é lado. Fim de festa (festa?), hospital lotado com uma toalha enrolada... não deu tempo de colocar a roupa. O fusca ficou no motel. Pegaria depois, pagaria duas diárias também, tiveram de ir de táxi, a moça não dirigia. Triste fim de uma noite no dia dos namorados: Tem dia que noite é foda.
Acordou com a cara gigante da enfermeira olhando para ele:
- Era para você ter perdido esse dedo moço, ainda bem que deu tudo certo – disse a mulher - Alguém lá em cima olha por você heim?
- Vá para a puta que lhe pariu.
- Eu heim? Gente mais mal humorada.


ps: Essa é uma história de ficção...

Desgraça que vende

O pai está esborrachado no sofá em frente à televisão assistindo o Jornal Nacional quando entra o filho:
- Pai.
- Humm.
- PAI.
- QUE é?
- Descobriram a cura para aquela gripe do porco?
- Descobriram.
- E como eles fazem?
- Derrubam um avião.
- Como é que é?
- Nada não filho, vai brincar vai.
Volta a olhar para tela como que hipnotizado, naquele dia já havia visto o infográfico do comander do avião, as ações da empresa aérea, um gráfico das correntes marinhas, a vida do piloto, a amante do co-piloto e naquele instante, depois de cento e vinte sete vezes (havia contado), assistia novamente um close do choro dos parentes das vítimas...

O velho

- Tem um trocado aí senhor?
Parou, olhou pra aquele homem velho, tinha uma barba enorme, até o peito, era amarelada da nicotina, a pele escura, cor de terra preta, vincos fundos no rosto denunciando a quantidade de anos que já havia vivido e a quantidade de sol que já lhe havia queimado. O homem estava meio deitado com as costas encostadas em um paredão, num vão que existia entre um muro e a parede de uma pizzaria, algumas latas de lixo ao lado, alguns trapos no chão, sacolas com tranqueiras que carregava onde quer que fosse. Sentado ao seu lado um amigo, ao menos era o que parecia numa primeira vista, era meio desengonçado e era até bem rechonchudo para quem vivia na rua.
- Não tenho nada aqui comigo amigo.
- Amigo? Sou seu amigo? Me leva para sua casa então.
Ficou apavorado só de imaginar aqueles pés imundos pisando no seu tapete de pele de ovelha. – Que horror. Pensou na sua televisão gigantesca, no computador, em todas aquelas coisas acumuladas durante a existência, coisas e mais coisas usadas raramente, que lhe deram felicidades efêmeras, que duravam normalmente o tempo de leitura do manual do apetrecho eletrônico recém adquirido em parcelas que se perdiam de vista. Imaginou a cara do porteiro do prédio ao entrar com aquele barbudo e seu escudeiro que mais parecia um Sancho Pança indigente.
- Amigo, é só modo de dizer.
- Hum... Entendo... Só modo de dizer.
- É.. tipo uma expressão sabe?
- Sei, mas já que você não tem nada aí, será que não tem em algum outro lugar?
Começou a ficar com medo, apavorado na verdade, seria assaltado, morto, decapitado, jogado aos ratos daquela lixeira atrás do homem barbudo, bem provável que lhe abusassem antes de matá-lo friamente. Metade do inconsciente lhe dizia para sair correndo, a outra metade mandava ser macho: - é só um velinho barbudo oras bolas - Se não fosse negro e magricelo passaria por Papai Noel com aquela barba amarelada.
- Não, em outro lugar também não tem.
- Hum... Entendo... Viu aí Zé? Em outro lugar não tem também. Não tem nada. É igual a gente. – disse para o Sancho Pança.
Sujeito abusado pensou. Normalmente “eles” repetiam aquelas frases tipo – que Deus lhe pague. Mas aquele ali foi irônico. E ele não suportava ironia. Em seus pensamentos já vinham frases subentendidas escutadas no ônibus, na revista semanal, no noticiário, no programa de rádio da manhã ou no jornaleco da cidade. Frases e idéias que foram parar na sua cabeça sem que ele nunca tivesse pensado em qualquer uma delas, sem perceber repetia como ecos: Mendigos, vagabundos, sem-terra, sem-teto, sem-camisa, sem-alguma-coisa que quebram as coisas, anarquistas e baderneiros.
- Não trabalham porque não querem esses safados.
No fundo era um bom sujeito, amigo de todos, adorava contar piadinhas, brincar com o pessoal do serviço, dava bom-dia para todo mundo e pegava as meninas e as mulheres do escritório com seu sorrisinho. Doava cinco reais por mês para um orfanato e sempre comprava rifas beneficentes, o que na sua cabeça lhe elevava ao status de “pessoa-consciente-dos-problemas-do-mundo”, ao melhor estilo “Tô fazendo minha parte”.
O rapaz vivia feliz na sua vidinha cheia de vazios. Tinha um empreguinho, morava de aluguel longe do serviço, não tinha carro (mas tinha um consórcio), queria “crescer” na vida, “subir” na carreira, “ser grande”, ir à igreja de vez em quando, “se formar” no curso técnico que pagava caro todo mês, o qual, segundo a recepcionista da “instituição de ensino” equivalia “quase” a uma engenharia.
O dinheiro que ganhava era sempre para pagar as dívidas do cartão e dos carnês das diversas lojas que comprava todo tipo apetrecho eletrônico que lhe mostrassem. O que sobrava era suficiente para se aparecer na frente das menininhas do local que ia dançar todo sábado. Quando lá chegava, comprava uma garrafa de whisky de segunda e as moças, mais bobas que ele, viam naquilo um certo status. Dizia que sabia lidar com as mulheres:
- São tudo igual essas cadela – repetia aos amigos.
Para ele as mulheres eram burras, indefesas, incompetentes, dependentes, chatas e mais alguns adjetivos que também nunca se perguntou de onde “aprendeu” tanto sobre elas, se na Praça é Nossa, no BBB ou na Zorra Total.
- Eu tenho muita coisa sim. Só não sou obrigado a repartir com um vagabundo que não trabalha, eu não sou igual a vocês.
Não sabia de onde havia tirado tanta coragem.
- Ah...Tá certo chefe. Você não é igual a nós então?
- Claro que não. Eu trabalho. Pago imposto.
- Que bom para você então. Deve adorar o seu serviço?
- Não é da sua conta.
- É que você parece tão seguro. Tão cheio de si. Como se conhecesse tão bem as coisas. Fala aí então para nós que não pagamos imposto: Você é feliz?
- Claro que sou.
Nesse momento um camburão da polícia para na calçada e vomita cinco policiais que descem truculentos e mandam os três para a parede.
- TODO MUNDO COM AS MÃOS NA PARDE E AS PERNAS ABERTAS!!!
Ele começou a gaguejar dizendo que não era igual aqueles mendigos, que ele era um trabalhador, que pagava impostos e que ele...
Pláft... Tapão na cara.
- Mão na parede vagabundo.
- Eu não sou vagabundo.
Pláft. Mais um tapa na cara.
Dessa vez com mais força. Nunca havia sentido nada parecido. O ódio. A humilhação. O medo. Uma pontinha do mundinho perfeito caiu.
- Bota a mão na parede se não vai pro camburão filho da puta.
Pensou novamente no seu mundinho. Em ser preso. Em não ir trabalhar no outro dia. Em estar numa cela cheia de presos. Em comerem o seu cú cinco mil vezes em uma noite. Em perder o emprego. Meu Deus o emprego - Não posso perder o emprego – colocou as mãos na parede.
O guarda deu um chute tão forte no seu calcanhar para que abrisse as pernas que viu estrelas. Pensou que iria morrer. Sentiu vontade de cagar, mijar e chorar tudo ao mesmo tempo.
- Ô seu guarda o rapaz só tava passando.
Era o homem barbudo que falava. Naquela hora o homem não quis que fossem iguais. Quis diferenças.
- Cala a boca crioulo - Disse o policial
Começaram a revista apalpando dos tornozelos até os cabelos.
- Vira de frente e bota a língua pra fora.
Virou e abriu a boca.
Pláft.
- Bota a língua pra fora filho da puta.
Aquele policial tinha tanto ódio em seus olhos que lhe deixou assustado. Enquanto isso um outro deu risada quando o rapaz começou a chorar.
- Deixa o cara Junior, deve ser algum maconheirinho de merda. Daqui a pouco vai se cagar todo.
Todos riram. O rapaz procurou os olhos negros do homem de barba. Um último alento no meio do torvelinho de sentimentos estranhos na sua vidinha vazia, um conhecido. O homem estava altivo. A cabeça baixa, as pernas abertas, as mãos na parede... mas... os olhos altivos. O rapaz se recompôs um pouco.
Os policiais foram embora depois de mais alguns tapas e humilhações.
- Se te pegar aqui de novo vou te levar em cana entendeu seu merda?
Cabeça baixa. Não sentia-se um ser humano. Não sentia nada que lhe lembrasse quem era, ódio, dor, humilhação se fundiam numa tristeza enorme. O mundinho ruiu e despencou.
Depois que eles foram embora o homem de barba disse:
- Senta aí.
Sentou-se no cobertor que nunca sentaria. O homem tirou uma garrafa de cachaça escondida atrás da lixeira, pegou uma lata de extrato de tomate na bolsa e encheu até a boca. Tomou um gole e passou.
- Toma aí.
Olhou para a lata por um segundo até que o velho disse:
- É o melhor que temos.
Sentiu-se envergonhado... Sorriu e bebeu um bom gole. A cachaça desceu rasgando a garganta... aquecendo cada parte do corpo... subindo lentamente para a cabeça.
- Obrigado.
- Eu era terceiro sargento do exército... Peguei minha ex-mulher de quatro na minha cama com meu melhor amigo... Havíamos casado há um mês... Saí correndo dali... Enchi a cara... Sofri um acidente... Entrei em depressão...
Deu uma pausa mais prolongada como se a memória estivesse reconstruíndo as imagens lentamente. Continuou:
- Bati em um capitão... Fui expulso do exército... Perdi todos os amigos... A Casa paga em prestações... Os móveis... O carro financiado... Perdi tudo...
- Desculpe... Eu... Eu não sei o que dizer.
- Não tem nada não. Hoje eu sou muito feliz. A vida tem outra dimensão para mim. Vejo tudo por um outro ângulo, pode até parecer estranho para você. Tudo torto, mas é só um ponto de vista. O seu ponto de vista.
Mais um gole. Secou a lata e meio tonto devolveu ao velho.
- Ô Zé, arranja alguma coisa para comer aqui para o nosso amigo.
O Sancho Pança abriu uma sacola plástica com pedaços de pizza enrolados, outros grudados. As mãos com as unhas compridas e sujas lhe entregaram uma de calabresa.
Dessa vez não olhou, nem pensou, sabia que era o melhor que tinham para oferecer. O homem encheu a lata novamente. Ficaram em silêncio um tempo. Nenhuma cobrança. Nenhuma desculpa. Depois beberam como amigos. Contaram histórias. Riram de quase chorar, de deitar pra trás e bater com a mão na coxa, desses risos que se dá quando se é cúmplice. Não contou suas piadinhas, a maioria delas era racista. Despediu-se dos novos amigos com longos abraços, prometendo voltar, traria uma garrafa e blá, blá, blá... coisa de bêbado.
No outro dia vendeu tudo que tinha, com exceção de uma televisãozinha que possuía e um rádio de pilha. Com o dinheiro das coisas e da rescisão no serviço iria para o Peru, andaria no trem da morte e conheceria o lago Titicaca, sempre quis conhecer, desde as aulas de Geografia quando era pequeno, depois veria o que fazer.
Alguns dias depois passou pelo mesmo local para deixar a garrafa, mais o rádio e a televisão aos amigos, poderiam vender quem sabe? Ganhar algum dinheiro.
O barbudo não estava, só o Sancho. Deu a garrafa, o rádio a televisão e se despediu, deixou um abraço ao velho amigo, que nunca mais viu e que nunca mais se separou do rádio.
A televisão foi trocada por uma garrafa de Velho Barreiro.

Solidão

- Alô?
Atendeu aquela voz feminina meio rouca.
- Estamos oferecendo uma assinatura da revista Veja por um preço módico...
- Porra vai se fudê.
- A senhora não vai se arrepender – diz o homem - É uma revista comprometida com a verdade, não gostaria de...
- Cala a boca filho da puta, vai ligar para o raio que o parta já falei.
Silêncio total dos dois lados.
O homem começa a chorar. Um sentido choro de saudades, choro de desânimo, de dor...
- Calma moço, por favor, afinal não é para tanto, desculpe, retiro os palavrões.
- Desculpa senhora, pôxa, tô desesperado, já liguei para mais de vinte e seis pessoas hoje e ninguém quer comprar uma assinatura, estou me sentindo tão sozinho... não tenho ninguém para conversar... vida ingrata.
- Tá, pode falar. – já mais calma.
- Minha mulher me largou, é que eu queria viver em uma casa de madeira e ela...
- Meu marido também me largou. Aquele desgraçado. – A voz era meio arrastada, como se língua estivesse enrolando.
- Sinto muito pela senhora.
- Ele não me merecia mesmo. Vivia reclamando. Diz que eu não sei cozinhar, passar, lavar, que eu sou gordinha...
- Eu adoro gordinhas.
- Sério?
- Quem gosta de osso é cachorro minha senhora.
- Não precisa me chamar de senhora, pode me chamar de Vilma.
- Eu sou Kleber, com K, meu pai deu esse nome em homenagem a um jogador de futebol.
- Que interessante. Você joga futebol?
- Não, nunca fui muito bom com esportes. Os meninos caçoavam de mim porque eu era gordinho.
- Ah, você é gordinho?
- Não, sou seco que nem vara de bambu. Mas quando era novo eu era bem gordinho.
- Eu adoro homens secos “que nem vara de bambu”.
- Sério?
- Quem gosta de barril é dono de bar meu senhor.
- Pode me chamar de Kleber, Vânia.
- Vilma.
- Desculpe, Vilma. – Repetiu mentalmente: Vilma, Vilma, Vilma, Vilma.
- Há quanto tempo sua mulher te deixou?
- Já vai para uns quatro meses.
- E você ainda está assim?
- Pois é. É que aconteceu um monte de coisas ao mesmo tempo. A mulher me largou porque disse que eu era um merda sem ambição. Que eu só queria viver com o suficiente e ela não suportava o “suficiente”. Queria mais, mais, mais.
- É, parece que ninguém nesse mundo está satisfeito com nada.
- Ainda por cima hoje caminhava no centro e vi um amigo do outro lado da rua, ou pelo menos eu pensava que ele era, peguei o celular e liguei para ele. Ele parou, olhou quem era e não atendeu, colocou o celular no bolso e continuou caminhando. Me senti tão sozinho. Me senti um merda.
- E eu que coloquei uma mensagem no meu orkut escrita por mim mesma com uma identidade falsa, só para os outros verem que tenho amigos.
- É... a vida é muito ingrata para nós dois.
- Eu estou separada há pouco tempo. A separação não dói tanto quanto a decepção. O mais triste é a decepção. Você acreditar em alguém e essa pessoa te desprezar, te humilhar, te maltratar...
- Ele batia em você?
- Não, não. Mas ele dizia que iria fazer isso e aquilo, prometeu que nunca faria tal e tal coisa. Que seria sempre íntegro. Que me amaria... Tudo mentira.
- Comigo foi assim também. A mulher dizia que seríamos felizes, que ela me aceitava da maneira que eu era. Que nunca faria isso ou aquilo, que nunca me trairia, que sempre cumpriria suas promessas... Tudo mentira.
- É... a vida é muito ingrata para nós dois.
- Qual o seu telefone?
- Ué, você acabou de me ligar.
- Mas é o sistema que liga, eu não sei qual o número.
- Ahn... E por que você quer saber? De onde você está falando?
- Estou em São Paulo capital.
- Você nasceu aí? Seu sotaque não é de paulista.
- Não, não, nasci no Maranhão. Estou aqui há cinco anos.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e quatro e você?
- Isso não é pergunta que se faça para uma mulher Kleiton.
- Kleber.
- Como?
- Kleber, meu nome é Kleber.
- Desculpe, Kleber – Repetiu mentalmente: Kleber, Kleber, Kleber, Kleber.
- Desculpa eu, não devia ter sido tão indiscreto.
- Tudo bem, não tenho vergonha de dizer, tenho trinta anos.
- Aonde você está?
- Você é curioso heim?
- É que faz muito tempo que não converso com ninguém. Quero dizer, alguém que não diga que não quer uma assinatura. No último domingo não troquei uma palavra sequer com outro ser humano. Sabe o que é isso? No sábado foi um pouco melhor, a moça da bilheteria do cinema disse: “bom filme”. Foi só naquele momento que me dei conta que não conversava com ninguém há muito tempo. Daí comecei a contar os dias. Hoje é quinta-feira e você é a única pessoa com quem converso nesses dias.
- Nossa. Que tristeza. Isso é muito...
(...)
- O que foi Vilma?
- Acabei de me dar conta que também não falo com ninguém há três dias.
- Nossa. Que tristeza. Você não tem filhos Vilma?
- Não, meu marido não queria, dizia que eu iria virar uma baleia se tivesse.
- Que homem idiota. Você gosta de crianças?
- Adoro.
- Eu também. Minha ex-mulher não queria ter filhos, dizia que iria virar uma baleia se tivesse.
- Que mulher idiota. Você disse que ela quis se separar por causa de uma casa de madeira, é isso?
- É... Eu sempre quis morar em uma casa de madeira. Dessas com fogão a lenha, cozinha grande, com uma área atrás que tivesse alguma árvore, qualquer que fosse. Gosto de consertar, arrumar, lidar com coisas manuais. Mas ela não quis. O pai dela é rico. Daí o negócio de morar em apartamento. Eu trabalhava na empresa dele.
- Eu moro em uma casa de madeira... É bem bonitinha, só precisa de alguns consertos, tem uma mangueira e um abacateiro enormes aqui nos fundos.
- Onde você mora?
- Em Salmourão... Estamos bem longe um do outro não é mesmo? Seiscentos quilômetros no mínimo.
- Pôxa... Com esse negócio de ligação por IP a gente fala com gente de tudo que é lugar do estado. Que pena.
- Pena por quê?
- Nada não.
- Fala.
- Nada, deixa para lá. Preciso desligar, meu chefe com cara de coelho está vindo na minha direção. Ele não larga do meu pé.
- Que pena... Se cuida então.
- Ta bom... Tchau.
- Bem, meu telefone é 3557-1295, o DDD é 18 se quiser me ligar algum dia.
- Ah, tá. Se cuida então.
Clic.
Clic.
Ficou parado pensando, o chefe chegou e lhe deu um esporro, disse que ele não fechava uma venda há dois dias. Os outros que não tinham tanto estudo quanto ele e conseguiam:
- Desse jeito não vai dar. Ou vende ou vai para rua.
Baixou a cabeça, fechou os olhos e imaginou uma casa de madeira, dessas que envelhecem com a gente, cada estalo do corpo vem acompanhado de um estalo na madeira da casa. Lixava alguma coisa enquanto via o sol se pôr entre as folhas do abacateiro. Uma brisa geladinha começava a soprar trazendo o cheiro da madeira queimando no fogão a lenha. Uma mulher se aproxima com um café quente e um sorriso. Sorriem um para o outro enquanto ele toma o café fresquinho que ela fez no coador de pano.
- Você é o pior operador que já tivemos por aqui. Não sei quem te indicou, só porque se formou em telecomunicações.
A mulher exalava um cheiro de suor gostoso, adocicado, misturado com sabonete de criança, cheiro de quem trabalhou o dia inteiro. Estava com uma saia que mostrava parte das suas coxas quando se erguia na ponta dos pés para estender a roupa. Alguns meninos corriam e se penduravam nos galhos do pé de manga. Era sábado. Dali a pouco sentariam na cozinha enquanto cortavam temperos e amassavam a massa para a pizza que fariam no forno de barro nos fundos da casa. Era o dia da pizza.
- É a última vez que te aviso heim? Vê se vende alguma coisa.
O computador encerrou o sistema automaticamente. Estava na hora de bater o cartão e ir embora. Pegou o ônibus lotado e apertado em direção ao bairro do outro lado da cidade, duas horas de viajem. Pessoas conversando sem sequer notarem sua existência.
Ao chegar em casa pegou uma corda que usava para a moto, caminhou chorando até a passarela de pedestres fez um nó e amarrou no cano onde milhares de pessoas colocaram a mão, milhares de pessoas que nunca conversaram com ele. Não queria nada além disso. Um dedinho de prosa. Uma olhar seria bom também. Fez um laço, um nó e colocou a cabeça dentro do laço. Lá em baixo, encostados num muro dois jovens lhe olhavam estranhamente enquanto acendiam mais uma pedra de crack na lata. Saíram correndo quando viram as suas intenções.
Olhou para o horizonte um último instante, como uma despedia. Por fim se jogou. Ficou pendurado balançando. As pernas tremeram um pouco, uma baba branca correu do canto da boca. Morreu de solidão... Em uma cidade com mais de oito milhões de habitantes.
*** Final alternativo ***
(...) Dali a pouco sentariam na cozinha enquanto cortavam temperos para a pizza que fariam no forno de barro que ficava nos fundos da casa. Era o dia da pizza.
- É a última vez que te aviso heim? Vê se vende alguma coisa.
- Vá para a puta que te pariu seu filho da puta.
Empurrou o monitor do computador para o chão, ao levantar empurrou o chefe cara de coelho com tanta força que ele chegou a cair no chão como um saco de bosta. Foi até a mesa do supervisor pegou o telefone da mão dele discou e esperou, esperou três toques que se assemelharam a três dias. No quarto toque ela atendeu. O chefe já se levantara para chamar os seguranças.
- Alô?
Atendeu aquela voz feminina meio rouca.
- Estamos oferecendo uma assinatura da revista Veja por um preço módico estaria interessada? – Deu uma risada um pouco nervosa.
- É você? O que aconteceu?
- Posso ir para aí?
- O quê?
- Posso ir para aí?
- Quando?
- Agora.
(...)
- Não demore.

Poesia, amor e boemia

Noite fria em Curitiba, adentra ao bar aquela figura meio fantasmagórica, meio encurvada, meio trôpega, no bolso do casaco azul surrado um caderno ensebado:
- E aí meu camarada. Dá uma cachacinha aí? Outro dia te pago.
- Porra Batista, a casa tá cheia velho, tu tem que vir mais cedo, já falei pra ti.
- Eu sou poeta meu irmão, não sei o que é cedo, muito menos tenho ocupação, também não sei o que é tarde, só faço o que manda o coração.
Todos riam no balcão do bar.
- Dá a pinga pro cara meu irmão – dizia algum cliente.
Ele dava a pinga e o Batista tomava de um gole só no copo de martelinho. Sempre queria pagar com uma poesia.
- Precisa não Batista. Agiliza meu irmão, agiliza.
Batista se intitulava um poeta maldito, estava sempre bêbado, andava pelos bares de Curitiba vendendo sua poesia, fazia sempre na hora, escrevia onde dava: guardanapo, saco de pão, papel higiênico, paredes, muros, bancos, mesas ou na própria mão – É pra não esquecer – dizia ele.
Alguns compravam para dar uma lida, normalmente os mais solitários, aqueles que sentam em uma mesa sozinhos (porque o balcão está lotado) e em mesa de bar o tempo passa diferente do resto do Universo. Tudo é bom para se observar, todos os detalhes são esmiuçados, todas as falas são escutadas. Tudo importa. Nada importa.
Quando se está só na mesa do bar o guardanapo da poesia também faz companhia, junto com outros parceiros como o cigarro, o cinzeiro e o copo. Batista fazia um agrado a esses, entendia suas dores e sua solidão, escrevia para eles uma poesia de espíritos libertos, ou que lhes desse a sensação de alma transcendendo, algo que fizesse brotar pensamentos dignos de um bom boêmio:
A vida veio e levou a paz do homem na mesa.
Queria ser criança de novo.
Roubar de novo o primeiro beijo.
Sobra à língua amarga lembrança de framboesa.

Para esses não pedia dinheiro, pedia um copo ou um gole, fosse o que fosse que estivessem bebendo, como se compartilhando o líquido levasse um pedaço de dor com ele. A dor de viver, de amar. O peso de ser humano era o combustível de sua arte. Mergulhava fundo no oceano da existência em busca de respostas, de vida, de sugar a vida e lamber os dedos com a arte, arrematando com uma generosa taça do licor amadeirado da liberdade.
Já para outros pedia dinheiro, principalmente para aqueles que davam qualquer coisa para ele sair de perto, muitas vezes nem escrevia nada, muitos reclamavam do seu cheiro de cachaça e pouco banho, pegava o dinheiro e doava ao garçom em tom de desprezo, ou tomava uma pinga. No papel deixava um poeminha medíocre, como medíocre era o cara da mesa:
O cara pensa que viver é isso... Pobre paquiderme.
Tudo seu, tudo seu. De olho no próprio umbigo.
Quando vê tudo acaba, todos comida de verme.
Nunca amou... Não teve sequer um amigo.

Um outro dia Batista chegou no balcão e pediu outra pinga. O dono do bar de sacanagem encheu o copo de martelinho com água da torneira, colocou em cima do balcão e foi fazer outra coisa enquanto espiava pelo canto do olho. Ao contrário do Quincas do amado Jorge Amado, ele não berrou quando tomou água, pelo contrário, fez careta e tudo, aquele trejeito de quem fica arrepiado quando a aguardente arde mesmo:
- Arre que essa é das brabas!
- Pois é Batista, agora circula meu velho, vai vender tua poesia vai. Vê se não amola muito os clientes heim?
Deixava ele vender porque alguns clientes do seu bar gostavam do Batista, o dono do bar não gostava de poesia, para ele não servia para nada, pensava que aquilo era coisa sem sentido, palavras rimadas, muitas vezes nem tão rimadas assim – Que bobagem – repetia.
Até a música que era tocada no bar possuía para ele sabor de dinheiro, não de alegria. Olhava os músicos como um estorvo, uns mimados chatos e reclamões, pura antipatia. Se as pessoas não gostassem tanto de música - esses beberrões - seria um bar sem som, no máximo um disquinho de vinil para não ficar muito silencioso e ninguém escutar a conversas dos outros.
Anos mais tarde, quando já não tinha bar, quando já havia sofrido por amor, caído de bêbado, sido assaltado, perdido um amigo, traído outro amigo e chorado de saudades de alguém, encontrou Batista novamente. O poeta passou na frente do bar que ele estava. Papéis trocados... era ele que estava bêbado:
- Escreve uma poesia aí para mim Batista – gritou empolgado por ver um rosto conhecido.
- Paga uma pinga que eu escrevo.
- Bota uma pura aqui para o meu amigo Batista.
Não sabia por que, mas necessitava desesperadamente de uma poesia, como se o peito ardesse em busca de paz, queria encharcar a alma nas palavras, beijá-las, pegá-las no ar como se fossem vaga-lumes a iluminar o caminho de sua consciência e de sua insignificante existência:
- Caramba Batista há quanto tempo.
- Pois é... Posso sentar?
- Claro, claro, senta aí. Quer comer alguma coisa?
- Não precisa não, quero a pinga pra esquentar.
- Ô Carlos! Cadê a pinga do meu amigo Batista.
Vem o Carlos e cochicha no seu ouvido:
- O dono proibiu esse cara aqui. Os clientes reclamam. Foi banido.
- Mas por quê? O que é que esses merdas entendem de poesia?
Muito menos ele entendia, na escola aprendeu algumas coisas como estrofe, quadra, quarteto, oitava e a diferença de prosa e poesia, mas não lembrava mais nada, só sabia que um poeta sofria e por isso se identificava com todos.
Batista lhe disse
- Você gosta de poesia?
- Sim.
- Então vamos sair daqui.
- Para onde?
- Para o mundo da poesia.
Batista então lhe mostrou um pouco do seu delicioso mundo, que parecia sofrido para algum neófito noturno, mas inundado de poesia, amor e boemia, o que para Batista era a mesma coisa. A noite curitibana ainda não se preocupava com neonazistas, traficantes de crack e batalhas entre torcidas organizadas.
Passaram pelo Largo da Ordem onde se via uma diversidade de tribos urbanas, cruzaram com punks, darks, hippies, metaleiros, sambistas e toda uma fauna humana de diferentes gostos. Comeram alguma coisa no Bife Sujo, naquele tempo se ia lá jogar truco e discutir o mundo.
Seguiram em direção a Cruz Machado, a Boca do Lixo, o coração da poesia. Foram ao Gato Preto tomar cerveja e ver as putas que lá passavam para comer batata frita e serem servidas pelos garçons e não aos outros, ali eram freguesas, não mercadorias.
Batista perguntou se ele queria uma água.
- Que porra de água Batista? Tá maluco?
- Água faz bem, ainda mais no meio da bebedeira. Aprendi com você lá no seu bar.
Ficou em silêncio um tempo, um pouco de vergonha.
- Você sabia da água?
- Claro.
- Por que não falou nada?
- O poeta aceita tudo que o mundo lhe dá, mesmo um copo d’água. Poeta não é o que rima, mas o que vive intensamente. Ser poeta não é disparar uma metralhadora de letras em papéis, é foder com vida... de qualquer maneira que ela se apresentar: nua ou dura, dócil ou crua, líquida ou no banco da rua.
Cada um que passava dava um olá para Batista, um mais diferente que o outro:
- “Meus amigos são mais interessantes Que uma manda de elefantes” – disse o poeta.
No final da noite ainda havia sobrado dinheiro para a última no bar do Saul, o Saul do Trompete, naquele bar que parecia uma caixa de fósforo com paredes vermelhas. Eram quatro da manhã e o trompete iria iniciar sua homilia triste. Parecia um convite aos boêmios para um minuto de silêncio pelo futuro que se aproximava, com ele uma onda de pessoas mortas pela falta de poesia, os bares boêmios da Cruz Machado se fechariam dando lugar a venda de crack, nazistas, tiros entre torcedores de futebol e puteiros sem música... onde aquela patuscada deixaria de existir e a poesia daria lugar a covardia.


Homenagem ao poeta Batista de Pilar pela maravilhosa noite nos idos de 1992 e ao amigo Filipe Ferrari, que é apaixonado por Curitiba, mesmo não tendo visto a Curitiba que eu vi.

Para Gisa

Era uma menina como todas as outras, tinha algumas bonecas, algumas panelinhas, um fogãozinho de brinquedo, tinha até uma bola que alguém havia dado de presente antes de se saber que seria do sexo feminino.
As amiguinhas viviam umas nas casas das outras cuidando dos seus filinhos de plástico, ou de pano, davam mamadeira, conversavam com eles, faziam comidinhas e trocavam fraldas. Algumas falavam que o marido já ia chegar e era preciso aprontar a casa. Coisas que provavelmente escutaram suas mães ou tias falando. A menina dos olhos grandes dizia:
- Meu marido vai ajudar a limpar a casa e cuidar do neném.
- Deixa de bobagem dizia a mãe de alguma delas, desse jeito você nunca vai casar.
- Então não vou casar.
As outras meninas gostavam de brincadeiras que ela achava sem graça. Montavam uma passarela onde brincavam de modelo e manequim, desfilavam rebolando, algumas roubavam batom das mães e se lambuzavam todas. Iam de um lado para outro arrastando o sapato de salto alto três vezes maior que o próprio pé.
Quando não estava com as amiguinhas manequins estava na barra da saia da sua avó. Foi sua avó que lhe despertou uma grande paixão, lhe descortinando um mundo totalmente novo: o mundo das histórias... foi a sua avó que lhe ensinou a ler.
Aquela senhora alta de cabelos brancos, sempre de saia um pouco abaixo do joelho, tinha algumas peculiaridades, sabia cozinhar muito bem, costurava a roupa da família toda, dos seus sete filhos e dos netos também. Fazia pão caseiro como se fosse um ritual, um ritual para reunir os que amava em torno da mesa. Misturava na farinha um pouco do amor que sentia por todos, depois de ir ao forno, o cheiro do pão quentinho levitava pela rua toda. A avó dava pedacinhos de massa para a menina, que ficava ao seu lado fazendo paezinhos pequenos, tão pequenos como ela.
Um dia a avó cansada dos maus tratos do marido decidiu ir embora. Sonhava em estudar, em conhecer coisas novas, em comprar livros e sentir neles cheiro gostoso da tinta nova, ver pessoas e saber seus dramas, simplesmente ser, andar pela rua livre, com a sensação de liberdade dos andarilhos, daqueles que carregam um saco de sonhos nas costas, um livro para descansar a cabeça, um naco de salame e meia garrafa de vinho.
Olhou para a neta e se despediu:
- Tchau minha neta amada.
- Para onde a vó vai?
- Não sei meu amor, se pudesse te levava junto. Não esquece de continuar estudando tá bom?
- Ta bom vó.
Um silêncio doído se fez entre as duas, as lágrimas já começavam a embaçar a visão da senhora que não queria entristecer a neta.
- Vó?
- Diga minha filha.
- Por que não pode me levar?
- Por que a vó não sabe para onde vai.
- Ai vozinha não me deixa, por favor.
Aquele pedido dilacerou-lhe a alma, olhou para a rua e viu a liberdade, olhou para a neta e viu toda a sua vida passar diante seus olhos, dizem que viver é fazer escolhas, naquela altura da viajem a vó resolveu voltar... e ficar. O amor por aquela criaturinha tão frágil como um sabiazinho na mão de um menino lhe impediu de partir. Voltou ao quarto e guardou suas coisas silenciosamente, para que ninguém soubesse que iria embora. Voltaram então para os pães, tecidos e leituras.
Certa vez as meninas armaram um palco para imitarem cantoras da televisão, todas foram lá dançaram e cantaram segurando um microfone imaginário, quando chegou a vez da menina ela subiu no palco e disse para as amiguinhas:
- Todas sentadas nos seus lugares que a professora vai começar a aula.
As outras se olharam sem entender:
- Nós não queremos brincar disso.
- Mas vão brincar sim, vou ensinar vocês a ler.
A avó que de longe observava a brincadeira, sorriu das idéias da neta. Não sabia como o seu sonho de ser professora tinha pulado assim para a neta, sem mais nem menos. Agora podia partir em paz, quem ama se realiza nos sonhos do outro, mesmo que não tenha realizado os seus próprios.
Era um dia normal quando ela quis ir embora de novo. Na partida a neta não quis se despedir da vó, viu de longe na sala da velha casa um corpo em cima da mesa que não era sua vó, havia um pano roxo ou algo dessa cor que ficou na memória da menina como a cor da dor, a cor da morte.
A menina cresceu e ao contrário de tanta gente que desiste dos sonhos, ela vive o seu, intensamente. Dizem que algumas vezes quando entra em sala de aula, que é o seu palco e o seu altar, alguns alunos se olham e falam baixinho:
- Que cheirinho de pão caseiro... tão sentindo?

Os meninos revolucionários

Tinham em média onze, no máximo doze anos cada, se conheciam desde os idos tempos do jardim, beberam mamadeira juntos na pracinha do Conjunto Habitacional Dona Efigênia, “um bom lugar para se morar”, dizia a propaganda. Eram nove garotos, todos com suas manias, trejeitos, defeitos e um genuíno sentimento de união (desses que só se vê na infância).
Brincavam de tudo, no tempo em que nem se sonhava com games, Ipods, computador, play station, msn e orkut. Jogavam bola na rua e não no quarto com olhar fixo na tela da televisão. Chegavam com os joelhos arranhados, a cara cheia de terra, cansados, suados, fedidos e com fome. Sempre havia um pão com Ki-suco na casa de um ou outro.
Sabiam fazer uma pipa do início ao fim, desde andar no mato e achar um bambuzal até enfeitá-la com rabiolas de cores diferentes.
Sabiam fazer um carrinho de rolimã e com ele se estoporar nas curvas da lomba da padaria, onde se travavam batalhas homéricas com os meninos do outro lado do conjunto, batalhas de coragem, vários se perdiam na curva, para nunca mais voltar... pelo menos por uma semana, tempo que ficavam de castigo por rasgarem as roupas.
Cada um era bom em alguma coisa. O Moisés era o melhor no cuspe à distância, em compensação Marcelinho tinha o peido mais longo e barulhento, talvez porque chegasse sempre comendo um pão com ovo, quando alguém pedia um pedaço, ele se apressava em cuspir dentro do pão e dizer: Ainda qué?
Tinha também o Claudinei que brigava com todo mundo que olhasse a sua irmã mais velha. O José Augusto que vivia apanhando da mãe, que era meio doida. O Paulinho, Robson, Rudinei (que era irmão do Claudinei) e o Vinícius (o dono da bola). Ou então: Gordo, Louco, Nêne, Bolacha, Cuco, Perna, Ali (de alicate) e Frango.
Ah, e também tinha o Claudinho, que era o mais novo, mas em compensação o pivô de todas as tramóias que se metiam, seu apelido era Cabeça, não por mandar em alguma coisa, mas obviamente pelo formato descomunal da sua cachola.
- A gente tem que ser forte no coletivo – Dizia Claudinho.
- O que é que isso significa?
- Sei lá, ouvi meu pai falando com um pessoal lá em casa.
O pai era do sindicato dos professores, algumas reuniões ocorriam na casa do Claudinho. Foi lá que ele escutou alguns termos que a turma usava quando ia jogar bola com os meninos que moravam do outro lado do Conjunto.
- Gurizada da Rua do Meio, uni-vos... *
- Heeeeee!!! – Gritavam os moleques.
Não sabiam por que gritavam alegres ao escutar a frase, aliás, nem Claudinho nem os meninos imaginavam que “uni-vos” vinha do afirmativo imperativo do verbo unir, mas não tinha problema, internamente possuíam alguma percepção que aquilo era bom de se gritar na hora de jogar bola ou na hora de uma briga.
Sempre trazia uma frase nova escutada nas noites de reunião dos amigos do pai.
- Um espectro ronda o nosso Conjunto. **
- Claudinho?
- Oi.
- Quê que é espectro? É do espectroMAN?
- Cala a boca moleque. É coisa séria.
Ou então chamava os meninos e falava baixinho, como se contasse um segredo:
- Nós temos que ser reacionários!
- O que é isso?
- Não sei, só sei que os bons são reacionários e os maus são revolucionários... Ou será ao contrário... Puta merda agora me confundi, viu, vocês ficam falando aí. Nós seremos os Reacionários da Rua do Meio.
A Rua do Meio na verdade ficava lá na parte de cima do conjunto habitacional, as ruas eram separadas por pequenas praças que nos anos 60, quando o Conjunto foi loteado, os rapazes se uniam para fumar cigarros, beber whisky e escutar Beatles. Depois os irmãos mais novos desses caras de jaqueta de couro ficaram velhos, então passaram a fumar cigarros, beber cerveja e tocar violão. Agora, os caras grandes, fumavam um cigarro fedido, bebiam vinho de garrafão e tocavam o foda-se no mundo. Os meninos eram proibidos de ir na praça depois das seis. Sonhavam no dia em que ficariam grandes e seriam os donos da praça. Enquanto esse tempo não chegava, faziam de tudo para se parecerem com “os caras grandes”.
Certa vez, Claudinho chegou no campinho e disse:
- Nós precisamos instalar a ditadura do polentaiado. ***
- Pica dura?
- Ditadura porra.
- Claudinho?
- Oi.
- Quê que é polentaiado?
- Acho que é um negócio da polenta que a minha vó Dita faz nos domingos. Deve ser algo de comer. Eles sempre fazem comida depois da reunião e bebem cerveja.
- Vamos fazer uma comida então? – Falou o Gordo.
- Boa idéia. O primeiro jantar dos Revolucionários da Rua do Meio: quando os homens se reúnem.
- Revolucionários ou Reacionários?
- Revolucionários, lembrei que o meu pai sempre fala vendo televisão: “bando de reacionários filhos da puta”, então acho que os bons são os revolucionários né?
- E o que vamos fazer na janta? – De novo o Gordo querendo saber.
- Sanduíche – disse Bolacha.
- Bolo com Fanta – disse Rudinei.
- Pipoca.
- Galera, nós vamos é fazer um churrasco. – Anunciou o Louco.
- Churrasco!!!
- É isso aí e vamos tomar cerveja também. - Foi a vez de Claudinho.
- Nós vamos entrar na cinta isso sim.
Depois de muita discussão, ficou combinado que roubariam uma galinha da Dona Zuleica, Claudinho roubaria duas cervejas do seu pai, Vinicius um saco de carvão e assim foi, cada um roubaria alguma coisa. O roubo da galinha seria uma ação conjunta (no coletivo como diria o pai do Claudinho). Combinaram de dizer para seus pais que iriam fazer um campeonato de botão na casa do José Augusto, visto que sua mãe (que era meio doida) saia para dançar toda sexta-feira.
No dia da tomada do poder pelas massas, ou melhor, tomada do galinheiro pelos meninos, todos estavam camuflados e preparados para sair do mundo das idéias e ir direto para a práxis galinhesca (sei que a palavra não existe, mas um fato dessa envergadura merece uma palavra nova).
Lanterna na mão de um, saco na mão de outro, corda na mão daquele. Louco (que foi escolhido para a empreitada por ser louco) pulou o muro e foi em direção ao galinheiro, pé ante pé, chegou perto enfiou a mão no escuro - o bunda mole do Alicate não colocou pilha na lanterna – pegou a primeira penosa que alcançou. Começou um berreiro desgraçado, galinha voando, galo cantando, luz da casa acendendo e a molecada correndo em disparada.
Chegando na casa abriram uma das duas cervejas quentes, para comemorar disse um, afinal eram homens. Riram, se abraçaram, brindaram e descobriram que tinham outro problema.
- Como é que se mata uma galinha?
Ninguém havia falado em morte... em pegar em armas...
Silêncio absoluto, podia se escutar a respiração de cada um deles.
Deixa comigo disse o Claudinho.
Já havia visto sua vó Dita fazer aquilo. Aqui vale ressaltar que Claudinho confundido pelo som das palavras só chamava agora a sua vó de Ditadura, o que fazia o pai sorrir e olhar para a esposa e para sogra como quem ganhava uma causa, o pai do Claudinho gostou da idéia e também passou a chamar a sogra de Ditadura.
Lá foi o menino, pegou o pescoço da bixinha deu duas torcidas e CLAC... Não deu certo, a pobre da galinácea ficou se contorcendo no chão, se arrastando em círculos em volta da cabeça meio pendurada. O primeiro a começar a chorar foi o Frango, talvez pelo parentesco no apelido, o segundo foi Cuco, provavelmente pelo mesmo motivo, no terceiro o choro já era coletivo.
Todos saíram correndo para suas casas aos prantos. Claudinho, em um ato de coragem correu na cozinha pegou uma faca e degolou a ave que berrava.
Era a primeira vez que via a morte de perto.
Dizem que nunca mais comeu carne na vida...



* "Trabalhadores do mundo, uni-vos" - final do manifesto comunista;
** "Um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismo" - início do mafinesto comunista;
*** Ditadura do Proletariado - período de transição, após a tomada do poder pela classe trabalhadora;

Degustando o silêncio

Tocou o celular.
- Alô.
- Quem fala?
- Sou eu Irmão, o quê que manda?
- Onde você está Amigo?
- Estou tomando uma aqui num boteco com uns camaradas do metal por quê?
De repente um barulho abafado e o som de fim de ligação. Amigo ficou olhando para o telefone um pouco preocupado, tu-tu-tu-tu-tu, era só o que ouvia, fazia alguns dias que não falava com Irmão.
Tentou ligar de volta, mas não conseguiu linha, parecia que o telefone estava desligado. Entre uma discada e outra o telefone toca novamente.
- Alô? Fala Irmão o que houve?
- Cara você tem como me buscar?
- Onde você está?
- Estou aqui no bar Tal e Tal, acabei de levar uma pedrada. Acho que desmaiei agora pouco.
Nem se despediu do pessoal no bar, jogou dez reais em cima da mesa e voou para o outro lado da cidade, chegou em dez minutos em um percurso que normalmente se leva vinte e cinco. Lembrou que alguém havia lhe dito que naquela noite teria um monte de bandas lá naquele bar.
Quando chegou viu um agrupamento de gente e seguiu direto abrindo caminho gritando, sai da frente, sai da frente. Todo mundo saía, um pouco assustados com aqueles berros.
Ambulância, sirenes, gritos, para-médicos, apreensão...
No hospital ligou para o pai de Irmão e avisou do ocorrido, tentando mostrar a maior serenidade possível.
Os pais de Irmão chegaram desesperados, pensavam que o corpo do filho estava indo para o IML. Por sorte estavam errados, porém os estragos foram grandes.
Já com o dia amanhecendo o pai de Irmão disse:
- Vai para casa vai Amigo.
- Não, vou ficar aqui.
- Não precisa não, você já fez o bastante, vá para casa, descanse um pouco. Você está com os olhos vermelhos de cansaço.
O pai de Irmão não sabia que ele havia se trancado no banheiro para chorar. Chorou bastante, Irmão havia perdido a visão de um olho, nessa situação achou por bem se trancar no banheiro, um pouco para não deixar os pais do amigo ainda mais preocupados, o outro pouco por não ser muito bom com essas coisas de sentimento. Não era bom com isso, nem com palavras, nem com gestos, abraços e essas outras coisas.
Tempos depois, choraria mais vezes escondido quando visitava o amigo que também chorava sentidamente em silêncio.
O silêncio, ah o silêncio. O silêncio era o código entre os dois, poucas palavras na verdade, somente as estritamente necessárias, todas as outras eram supérfluas, sem sentido. Mesmo eles não sabendo, o silêncio falava pelos dois, e os versos que dançavam entre eles, mesmo calados, eram de carinho e aconchego, diferente de outros silêncios que se fala pelas ruas e normalmente são carregados de mal-estar e dúvidas.
Entre eles sempre foram de certezas... E paz.
Irmão chorava por que estava cego de um olho, estava careca, estava com uma cicatriz enorme na testa, e mais que isso, chorava tentando entender... Por que?
Já Amigo, chorava no banheiro da casa do outro quando ia visitá-lo, não sabia por que chorava, só sabia que chorava... em silêncio. Não por pena, mas como se seu choro fosse aliviar o outro e ajudá-lo a sofrer.
Em anos de amizade nunca trocaram uma palavra sobre o assunto, nenhuma, nem uma pergunta, afinal para que? Se o silêncio já falara tudo... Falou da dor, do desespero, dos porquês. Foi o silêncio que também disse: Não se preocupe amigo. Algumas vezes o silêncio quebrou alguns preceitos e de tanta amizade se aventurou a ultrapassar limites e voejar pelo espaço e abraçar o outro - Estou aqui Irmão – dizia certas vezes, e abraçava com força utilizando seus braços invisíveis - Eu sei - respondia o silêncio por ele.
Certa feita, bem depois disso tudo, quando o tempo girou a roca dos anos, quando as feridas estavam caiadas, as mentes mais claras, os gestos mais longos, quando já não tinham mais um grupo enorme de conhecidos ao seu redor, Amigo estava em um bar tomando uma tranquilamente, observando o movimento, o passar dos carros, o ir e vir dessa massa humana que escorre pelas ruas ao final da tarde. Irmão chegou, pegou um copo no balcão e sentou na mesa do amigo. Serviu a cerveja que estava sobre a mesa e também ficou olhando para a rua. Não trocaram uma palavra sequer, nem olá, nem oi, nem boa tarde... Parecia que estavam ali desde sempre. O garçom estranhou aquilo e foi falar com o dono da mesa.
- O senhor conhece este rapaz?
Olharam para o garçom com estranhamento.
- É claro.
Pobre garçom, não estava acostumado ao silêncio, observava o rosto daqueles dois na mesa e perguntava por que sorriam juntos algumas vezes, como se compartilhassem pensamentos. Ficou mais atônito quando depois de doze cervejas sem uma única frase dita eles pagaram a conta (também sem emitir qualquer som), levantaram-se, se olharam, balançaram a cabeça e saíram cada um para um lado.
Logo após o acidente Amigo ainda iria chorar algumas vezes nos banheiros dos bares, camuflado pelos olhos vermelhos de cerveja e fumaça de cigarro, normalmente quando estavam juntos e Irmão servia a cerveja para o outro, derramando o liquido ao lado do copo, ainda não estava acostumado com a falta de um olho. Discreta e silenciosamente Amigo colocava o copo um pouco mais para o lado. Silenciosamente... Deixando que o silêncio falasse:
- Deixa comigo meu irmão.
- Obrigado meu amigo.

Preconceitos

- Meu filho, qual é a aulinha que você escolheu para fazer?
- Ah pai, eu vi a de teatro, a de inglês, a de natação e a de dança.
- Qual você vai escolher? Inglês ou natação?
...
- Pôxa pai eu queria fazer a de dança.
- Nem pensar moleque, dança é coisa de viado, tu vai acabar virando um, pode tirar o teu cavalinha da chuva.
Normalmente repetia essa expressão, dentre tantas outras que usava para educar o filho: “casa da mãe Joana”, “fazer nas cochas”, “dar com os burros n´agua”, “entrar com o pé direito”, e por aí vai. Nunca soube o que significavam, também nunca se perguntou por que as usava. Também nunca se perguntou por que aulas de dança transformariam seu filho em um viado, seja lá o que isso signifique também. Só sabia que era assim.
- Mas queria tanto fazer isso. Deixa né pai? É tão legal.
- Olha moleque se tu insistir nesse assunto vai ver “com quantos paus se faz uma canoa” entendeu?
Acabou indo para a aula de Inglês.
Anos mais tarde em uma reunião com seu grupo de amigos, na verdade era mais uma irmandade do que um grupo de amigos, se conheciam há mais de dez anos, muitos eram padrinhos de casamento uns dos outros, outros padrinhos dos filhos, outros confidentes, outros parceiros de truco, outros de trago e outros de fé. Dia sim, dia não se reuniam para uma cerveja, um café, uma janta, um teatro, ou um simples cinema.
Pois bem, em meio a uma boa conversa na reunião alguém colocou um Marvin Gaye no último volume.
- Vamos dançar pessoal!! – gritou alguém mais empolgado.
Todos levantaram, menos ele, não sabia dançar.
- Vamos lá João Roberto.
- Não sei dançar, vocês sabem disso.
- Como não sabe dançar, qualquer pessoa dança Marvin Gaye meu irmão.
- Eu não sei dançar. Preciso repetir?
- Como não sabe João?
- Quando eu era menino até queria fazer dança, mas meu pai disse que eu viraria viado.
- Mas João, você é gay.
- Pra você ver... Se não fosse o preconceito seria um gay que sabe dançar.
- Que bosta...

A mulher da aula de tango

Estava em sua terceira aula de tango.
Era um sonho antigo, sempre quisera fazer isso, mas a ex-namorada era muito chata, cheia de firulas, de manias, não só de grandeza, mas também de ninfeta, apesar dos seus quase trinta anos.
Ela gostava só de bares chiques, de beber whisky importado ou suco de laranja, detestava cheiro de fumaça, adorava escutar Lulu Santos e comer alface (ele não sabia se ela gostava ou comia por obrigação). Já ele gostava de forró, cerveja, charuto e comia churrasco como se fosse feijão com arroz, se a cadela do vizinho deu cria já era motivo para comemorar, qualquer motivo era um bom motivo para reunir quem estivesse por perto, o que deixa a moça muito nervosa. Mas nem sempre foi assim, no início ela era a maior parceira, dançava, jogava, fumava e mentia, como diz o ditado, “quem não bebe, não fuma ou não mente não é filho de boa gente”, depois foi ficando cada vez mais chata e apática, reclamando de tudo.
Quase dez anos de relacionamento, “quase uma vida”, costumava dizer aos amigos. Se perguntavam o motivo, nem ele sabia por que havia ficado tanto tempo com ela. Uns diziam que era o sexo, ele dizia que não, que o sexo era um saco. Outros diziam que era o apego à família dela, “que nada, ninguém gosta de mim lá”, era visto como um estorvo, um festeiro inveterado dado a festas em excesso.
Hipóteses, tudo especulação, no fundo era só um acomodado. Dava trabalho mudar, sair do marasmo, tomar decisões e executá-las. Terminar com a moça estava na lista das coisas trabalhosas.
Quando tudo acabou, resolveu realizar todos os seus sonhos. Pular de para quedas, dançar tango, viajar, ler mais, malhar, cuidar mais de si, e todas essas coisas que os caras beirando os trinta dizem que vão fazer quando ficam sozinhos.
Nessa nova etapa dizia que se fosse namorar alguém seria uma mulher inteligente, culta, aberta, nada de cabeças vazias, nada de mulheres indecisas ou cheia de manias de menininhas, dessas que gostam de ler Capricho e reclamam quando se toma o segundo copo.
Voltando a aula de tango, já dançara com aquela mulher duas aulas seguidas, ela parecia decidida, além disso, tinha as panturrilhas da perna tão delineadas que o estavam enlouquecendo, era esguia, cabelos soltos aos ombros – nada de chapinhas – quase uma Jana das Selvas. Conversaram pouco, mas o suficiente, sentia que era uma mulher decidida, apesar de querer ficar sozinho, não resistia a solidão. Além do mais ali estava uma mulher que não queria ser uma menininha, uma mulher que sabia o que queria, afinal de contas ela estava fazendo aulas de tango, quer maior prova do que isso?
- Você gosta de sair?
- A-d-o-r-o – Disse ela.
- O que você gosta de fazer?
- Ah, eu gosto é de dançar.
- Legal, eu também, adoro uma festa. Você bebe?
- Ô.
- Serio? O que você gosta de beber?
- Tequila.
Meu Deus, é agora que eu caso, pensou.
- Você poderia me dar seu e-mail? Podemos marcar alguma coisa.
- Claro, anota aí: amorinha@taltal.com.br.
- Amorinha... amorinha?
Virou as costas e saiu sem nem dar tchau...

Mundo moderno

- Alô.
- Quem está falando?
- Quer falar com quem?
- Quem fala?
- Você liga para o meu celular e pergunta quem fala?
- É que foi uma amiga que me deu esse número. E não sei se você é a pessoa.
- Quem a pessoa que você quer falar?
- Com o Marco Antônio.
- Sou eu.
- Ah é você mesmo. Seguinte assim ó, uma amiga me deu esse número. É que uma amiga de uma amiga da prima dela disse lá na faculdade que você transou com a sua namorada e ela gostou muito, era a primeira vez dela e você foi muito carinhoso.
- Quem é que ta falando?
- Meu nome é Morgana.
- Quantos anos você tem menina?
- Tenho o suficiente.
- E o que você quer?
- É que eu gostaria de perder a minha virgindade, as meninas da minha sala já perderam, todas, mas eu queria que fosse alguém bem carinhoso, por isso peguei seu telefone. Será que você poderia fazer isso para mim?
- Que merda é essa ô menina, vai arranjar o que fazer.
- Não é trote não, eu juro, gostaria que você fizesse isso para mim.
- Sério?
- Sim.
Pensou um pouco...
- Olha menina não vai dar, eu agora já não sou o mesmo. Usando um jargão do futebol: pendurei as chuteiras... ou melhor, as cuecas. Me aposentei. Estou amando e muito feliz sabe? Acho que não seria legal não.
- Puxa que pena.
- Pois é, boa sorte para você, espero que você encontre um cara carinhoso. Bem, se quiser um conselho, transe pela primeira vez em casa.
- Em casa?
- Sim, se você for para um motel e não gostar no negócio não dá para mandar o cara embora.
- Ah. Tipo assim: Pai, mãe, vó, vocês poderiam sair de casa para eu poder perder a minha virgindade? É isso? Legal essa dica.
- Vá se fuder então, só quis ajudar.
- Me fuder não resolve o problema, Gostaria que outro fizesse isso por mim. Aliás, se você quisesse mesmo ajudar faria isso. Eu pago o motel, o que você acha?
- Qual a parte que você não entendeu de “não vai dar”?
- Desculpe, é que precisava disso rápido.
- Rápido?
- É... Na verdade eu vou fazer vinte e um daqui uma semana entende?
- E o que isso tem haver com você perder sua virgindade?
- Cara, minha irmã de quinze anos veio perguntar sobre minha experiência sexual, eu disse que aquilo não era assunto para a idade dela. Daí ela falou que a primeira vez dela foi muito legal...

Silêncio...

Mais silêncio...

Gargalhadas...

- Olha foi mal, desejo boa sorte para você e ...
Barulho de telefone sendo desligado, ela bateu na cara dele.
Nisso o seu grande amor aparece no quarto, tinha ido buscar pipocas e suco na cozinha para continuarem assistindo um filme.
- Quem era amor?
- Nada não amor, foi engano...
- Ahn.
- Me diga uma coisa...
- Sim.
- Algum dia você comentou com alguma amiga sobre nós?

O menino que queria voar

Ficava se imaginando como um pássaro. Uma gaivota, uma águia, um falcão. Sempre pensava nisso, sonhava em voar, podia ser até um urubu, não importava, desde que tivesse asas grandes. Mas não queria voar em avião ou outro aparelho qualquer, queria voar mesmo, também não era nada como o super-homem, que voa muito rápido, dizia ele, queria voar como pássaros, e grandes, bem de leve, sentir o vento escorrendo pelo seu rosto, planar no ar, completamente livre, sem peso... sem amarras. Algo como aquilo que os adultos sonham em ser, normalmente quando vêem meninos tomando banho de cuecas no chafariz da praça em dias de muito calor.
Chegava até sonhar algumas vezes que voava, e muitas vezes os sonhos assustavam, é que não conseguia controlar o vôo e se esborrachava no chão, mas não se machucava, só acordava gritando e gritando acordava todos da casa, assustados com aqueles sons: Uoou, Uoooooooooooooouu, e quando iria pousar era uaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhh!
Não poucas vezes caía da cama, mas acordava sempre rindo, banhado na sensação de paz de voar.
Em alguns sonhos conseguia controlar o vôo completamente, e então ia para um lugar que tivesse mar, passava rasante a água olhando bem de perto os cardumes de peixes azuis e amarelos que se espalhavam, sentia até as gotas da água do mar que insistiam em lhe acariciar as bochechas, sentia até o sabor da água salgada.
Todas as vezes que viu adultos rezando eles estavam pedindo coisas, veio daí a idéia de rezar toda noite para sonhar que voava. Já sabia que no mundo de verdade nunca iria consegui voarr. As gentes grandes já haviam lhe tirado essa ilusão quando era mais jovem, bem antes de agora, que já estava com sete anos.
Até que viu na televisão um desenho, do Coiote e do Papa-Léguas, no desenho, o coiote que invariavelmente apanhava e se dava mal, nesta vez caiu vagarosamente de um precipício usando um guarda-chuva, planava no ar, descia devagar como uma pluma dançando ao sabor das brisas, claro que não era como voar, mas para ele já bastava.
- É isso, é isso, é isso!
Saiu correndo atrás de um guarda-chuva. Pegou a sombrinha da mãe e viu que era muito pequena. Não, sombrinha é coisa de mulher, pensou, revirou a garagem até achar um guarda-chuva que era do seu avô, tão grande para ele que se assemelhava a um apartamento, saiu dali decidido: Vou voar.
Chamou seu amiguinho que além de amigo era vizinho, a casa dele tinha um açougue em baixo e eles moravam em cima, e bem lá em cima havia um terraço, era o lugar mais alto que o menino conseguia imaginar naquela hora.
- Jéferson... Jéferson. – Esperou mais um pouco. Jefersooooooooooon.
- O que é?
Apareceu na janela o amigo com cara de choro, estava de castigo.
- Posso ir aí na sua casa?
- Pra quê?
- Para fazer um teste? Posso?
- Pode, tô de castigo mesmo.
Lá foi ele, arrastando o guarda-chuva que era quase do seu tamanho. Chegou lá e foi direto para o terraço, explicou para o amigo o que vira no desenho. O outro, como toda boa criança apoiou sua idéia. Subiu na mureta do terraço e abriu o guarda-chuva. O grito da sua mãe ecoou por toda a quadra.
- Menino, desce já daí. Pelamordedeus meu filho, desce daí, você vai se matar menino.
- Não vou não mãe, pode deixar, eu vou cair bem devagarzinho, a senhora vai ver.
- Meu filho, por favor, conversa com a mãe uma coisa antes.
- O que é?
- Você gosta da mãe filho?
- Gosto.
- Você gosta do pai?
- Gosto.
- Então desce daí filho, por favor, pelo amor que você tem por sua mãezinha.
- Mãe, não se preocupa, eu vou...
- DESCE DAÍ AGORA OU VOU TE ARREBENTAR DE PORRADA QUANDO VOCÊ CHEGAR AQUI EM BAIXO.
Decidiu não pular, devido aos fortes argumentos da sua mãe. Mas nem deu tempo de desistir, o pai do Jéferson já havia subido o terraço e agarrou o menino que estava pronto para se jogar do terceiro andar. O menino saiu pensando: Esses adultos são uns idiotas.
O tempo, que é o senhor da vida, acelerou sua roda, muitos e muitos anos depois o menino se tornou homem, casado, com filhos, com carro e com casa. Também com um trabalho, que lhe prendia qual pássaro em gaiola. Do alto do edifício que trabalhava, passava um bom tempo olhando os pássaros passando em frente a sua janela, pombos é verdade, mas continuavam sendo pássaros e estavam lá fora, ele trancado, algumas vezes com uma tristeza cortante por algo que não sabia explicar, lhe doía a alma, então voltava ao trabalho.
De férias na praia com a esposa se instalou sob um guarda sol com os filhos e a esposa. A esposa foi dar uma caminhada com as duas meninas e ele ficou sozinho com o filho mais novo, olhou para a casa do salva vidas, olhou para o filho e olhou para o guarda sol. Sorriu com a possibilidade de largar o filho lá de cima agarrado em um guarda sol e provar que ele teria caído flutuando naquele dia longínquo de sua infância.
Tudo preparado, avisos, guarda-sol, subir a escada da casa do salva-vidas.
- Você vai adorar filho.
O menino sem entender muito o que estava acontecendo estava gostando, suas maiores emoções se resumiam aos jogos de computador. Estavam a postos quando escutam os berros:
- DESCE DAÍ AGORA. Você está louco homem? Quer matar o menino?
O menino desceu, guardaram o guarda sol, voltaram para casa, a mulher reclamando... O homem disse baixinho:
- Esses adultos são uns idiotas...

Adeus classe média

- Ganhamos, ganhamos... meu Deus do céu ganhamos! Olha Cristina, vem ver. Me ajuda a conferir que eu tô tremendo. Meu Deus do céu ganhamos! Vê aí se é isso mesmo.
Ela estava na pia cortando um repolho. Resmungava como sempre, vivia de mau humor já havia algum tempo. João Pedro dera para beber todos os dias quando voltava do serviço. Coisa que o pastor dizia ser do Demo. Bebia, escutava música, fumava um cigarro – depois de dez anos voltara a fumar – e mais tarde vinha se esfregando nela com aquele bafo insuperável. Cheio de paixão, mas só na cabeça, porque lá em baixo a paixão estava caída.
Ela veio correndo ver se ele não estava bêbado demais para pensar que tinham ganhado na loteria.
Olhou, olhou, fez as contas, anotou os números em um papelzinho do lado, riscou daqui e dali e gritou:
- Ganhamos, ganhamos... meu Deus do céu ganhamos!
Se abraçaram, apesar do bafo de onça de JP até se beijaram, sem língua é claro.
- Louvado seja Jesus João, agora vou poder descansar dessa vida ingrata.
- E eu não trabalho nunca mais na vida Cristina, nunca mais. Vou compor música. Vou mandar aquele desgraçado do patrão para a puta que os pariu. Ele e aquela corja de puxa sacos que vivem atrás dele.
- Vamos morar numa casa com piscina João, meu sonho. Quero ver essas vizinhas fofoqueiras de queixo caído, e eu vou convidar só uma vez heim! Vou convidar elas para irem na nossa casa nova, dar um chazinho, uns quitutes de rico e depois mando elas embora, para nunca mais voltarem. Ora já se viu falar da Clarisse do jeito que elas falam essas pragas. Só porque a menina é simpática e gosta de conversar.
- E eu vou comprar um carro zero, oficina mecânica nunca mais. Um carrão com um som de arrepiar você vai ver. Vou mostra pra todo mundo lá da rua da mãe que eu venci na vida. Adeus aluguel. Adeus carro um ponto zero usado. Adeus classe média desgraçada.
- Louvado seja Jesus João.
- Temos que dar um dinheiro pra mãe né Cristina?
- É, mas se dermos para sua mãe, vamos ter que dar para minha irmã também.
- Eu não vou dar porra nenhuma para aquela vagabunda que só atrapalhou nossa vida.
- Ah, vai sim. Ela é minha irmã João, é sangue do meu sangue – disse já com lágrimas nos olhos.
- É, mas na hora de pagar o dinheiro que ela pediu emprestado para o gigolô do marido dela ela não se lembrou disso.
- Creia em Deus pai João, será que você vai me jogar isso na cara até o fim da vida?
Levantou-se empurrando a mesa e virando de costas. João pensou um pouco e resolveu se acalmar, com loteria e tudo ainda queria dar uns beijinhos mais tarde, e ela quando fica braba, nem que o pastor mande baixar a guarda ela não baixa. Afinal, pensou ele, poderia dar o dinheiro escondido para a mãe depois que tudo estivesse certo.
- Tá bom, tá bom Cristina, vamos ajudar todo mundo. Podemos dar dez mil para tua irmã tá bom assim? E damos quinze para a mãe, que tá mais velha.
- E para o tio Quevedo? Nós prometemos ajudá-lo não prometemos?
- Puta merda é verdade, agora vamos ter que ajudar.
- Eu disse para você não prometer nada. Dizer que de vez em quando a gente passava para deixar um arroizinho... De vez em quando... Mas agora você quando bebe deu para pensar que é a Madre Tereza.
- Vamos dar cinco mil para o velho, é mais do que ele já viu em toda a sua vida. Para quem cortava cana, cinco paus é muito dinheiro.
Dali para adiante começaram a fazer as contas do quanto iriam distribuir para os parentes. Ele empolgado abriu mais uma cerveja, era a última. Depois de ajudarem os parentes, começaram a ler os classificados atrás da casa dos seus sonhos, o que suscitou nova discussão sobre o bairro. O local da casa nova deveria ser suficientemente perto dos seus desafetos, para que eles vissem como estavam ricos, mas também suficientemente longe para não receberem visitas indesejadas, esses pidões miseráveis, não vão sair mais do nosso portão (com porteiro é claro). Como a divisão iria longe ainda, Pedro foi até ao botequim do seu Guilherme pedir mais umas cervejas que a noite ia ser longa.
- Bota uma aí para todo mundo por minha conta seu Guilherme. Bota aí que eu quero comemorar.
- Mas tu nem pagou aquela pendura que eu te falei de ontem João Pedro.
- Porra Guilherme, há quanto tempo a gente se conhece? Caralho meu irmão, não dá pra tu vê um homem feliz que quer tirar toda alegria do sujeito. Benza Deus. Bota a porra da cerveja aí pro pessoal que eu vou pagar essa merda, vou pagar em dobro amanhã Guilherme, e espero que tu pare de me incomodar por essas ninharias. Amanhã será outro dia, já dizia um outro Guilherme que era gente boa, o Arantes.
Quando passava do ponto começava a filosofar e lembrar dos tempos dos festivais e músicos que poucos lembravam e outros nunca ouviram falar.
- Vocês não sabem nada de música.
Sempre terminava a discussão assim, voltava para casa triste e era obrigado a escutar as músicas religiosas da esposa, o que lhe deixava mais triste, porque queria continuar a discussão em casa.
- Escuta esse baixo Cristina, escuta só, tá muito cortado, devia ser mais agressivo.
Cristina mandava ele calar a boca e escutar a letra. A letra que importava.
O bar do seu Guilherme era surreal, parecia uma caixa de sapatos de tão apertado, um pequeno balcão de um metro e meio que ele e sua esposa - que tinha um metro e quarenta - ficavam atrás. Os clientes ficavam na calçada, embaixo de um toldo de lona preta todo furado, um calor infernal só aliviado quando corria uma brisa, mas que também trazia o cheiro das tinturas da fábrica de linhas que ficava no bairro. Dia de muito movimento ele colocava umas mesas do outro lado da rua e ficava de um lado para o outro levando bebidas, o motivo pelo qual mancava, já havia sido atropelado duas vezes por motoboys.
Nosso herói da classe média tomou umas duas, comeu um ovo cozido e partiu com mais quatro em baixo do braço. Foi-se, deixando a promessa de reformar o bar do seu Guilherme.
- Vou te dar dinheiro para você fazer um restaurante cinco estrelas aqui Guilherme, ouça o que eu digo, não ouça ninguém. (quando muito, muito bêbado citava Engenheiros, que segundo ele havia copiado o estilo do Paralamas e mudado algumas coisas, e que por fim o Paralamas tinha copiado o estilo do The Police, e mudado mais algumas outras, era a sua grande teoria musical, mas só falava dela muito bêbado e para os melhores amigos).
Chegou em casa feliz, sorrindo como só os bebuns que ganham na loteria sorriem, olhos cheios de inocência, já declarando que iria abrir um orfanato com o dinheiro.
No outro dia foram ao banco retirar a grana. Colocou seu terno de casamentos – o único que tinha - guardou bem o bilhete, pegou a mulher (que teve que dar uma empurrada no Uno que estava ruim da bateria).
Ele entrou impávido, sentou-se na mesa do gerente enquanto Cristina esperava tomando cafezinho, até Clarisse acordou mais cedo para ir junto com eles – mesmo tendo chegado às cinco da manhã, estava conversando com uns amigos disse a moça – quando ele voltou com a cara de quem viu fantasma, Cristina falou:
- E aí João? Ganhamos mesmo? Diz que sim pelo amor de Deus.
- Ganhamos!
- O sangue de Jesus tem poder!!!
- Nós e mais quatrocentas e vinte e seis pessoas... Ganhamos a fortuna de dezoito reais e trinta e sete centavos.
- Filha das puta – deixou escapar a nossa querida amiga religiosa.
Voltaram tristes e cabisbaixos, no caminho João compra a Veja da semana, entra no carro, mais uma empurradinha.
- Classe média desgraçada.

O menino e o mar

O menino tinha as pernas meio tortas, o cabelo era meio loiro, meio preto, meio seco e meio liso, vai entender? Tinha lá seus sete anos. Nessa idade onde o tempo passa bem devagar, porque tudo é novo, e esses pequenos seres, ainda que não saibam, possuem o mundo todo para ser degustado. Nessa idade os problemas se resumem em alguns arranhões, o cara do final da rua que é brigão e bate em todo mundo, não conseguir cuspir entre os dentes, não conseguir jogar bolita sem fazer “cú de galinha” e não conseguir assoviar com os dedos na boca, entre outras coisas importantíssimas.
Caminha com o pai em direção a praia. O pai havia discutido em casa com a mãe, saíra batendo as portas e xingando a vida.
- Ô menino! Vem dar uma caminhada com o pai.
Lá foi o moleque, bem quieto, com medo que o pai desistisse de levá-lo junto. O pai tinha como único amigo o menino, mas o menino ainda nem imaginava isso, o pai era fechado e vivia para a família, mas também ainda não sabia muito desse negócio de viver, por isso brigava tanto com as coisas pequenas.
O menino pensava que não deveria haver briga por causa das férias, afinal não tem nada melhor que o mar e brincar, ou brincar no mar, ou brincar de se jogar no mar, ou brincar de amar o mar, mas o menino também não sabia ainda o que era amar. Não definia, não possuía o conceito de amar - aliás, talvez essa época da vida seja tão boa por ainda não termos conceito de nada - mas o menino sentia, ah isso sentia, chorava e tudo, só de imaginar ficar sem as pessoas que amava e ainda não sabia que amava. Tinha uma preocupação enorme no caso de algum dia alguém raptar seu pai e sua mãe e obrigá-lo a comer baratas.
- É isso aí menino. Ou você come essas baratas ou matamos seus pais.
Meu Deus que tortura. Até que em seus devaneios se enchia de coragem e comia as baratas, todas, e ainda olhava para o ladrão com cara de coragem e os pais lhe erguiam como um super-herói. Era a glória.
Quando chegaram na praia era mais ou menos sete da noite, corria uma sopro meio gelado, o céu tinha diferentes tons de vermelho que vinham caminhando do outro lado da terra em direção ao lugar em que estavam, o mar, onde o céu estava azul escuro, quase preto.
Quando chegaram na beira do mar o menino olhou para todos os lados e não viu ninguém, olhou, olhou e nada, ninguém, estranhou, correu até a casinha do salva-vidas, ninguém também, virou-se e foi correndo em direção ao pai que estava sentado na areia segurando os joelhos e mirando o mar com os olhos distantes, como se fosse um homem do mar.
E agora? Pensou. Falo ou não falo? Não queria atrapalhar o pai e nem ir embora, afinal, água só no outro dia pela manhã.
Nunca havia visto o mar de noite, nunca tinha visto a praia sem gente, ficou sentado ao lado do pai em silêncio. Até que não aguentou mais. Falou como se sua notícia fosse tão importante que o pai ficaria cheio de orgulho dele, como se fosse salvar a humanidade dos homens maus que fazem as crianças comerem baratas.
- Pai.
- Oi.
- Esqueceram de desligar as ondas.
- O quê?
- O salva vidas saiu e esqueceu de desligar as ondas.
O pai deu risada. Riu muito até ficar com água nos olhos e abraçar o menino.
- As ondas nunca param meu filho.
- Sério pai?
- Sim.
- Elas não servem só para a gente brincar e no final do dia o salva vidas desliga um botãozinho que tem lá na casinha dele?
O pai riu mais um tanto.
- Não filho, as ondas estão sempre aí, sempre estiveram e sempre vão estar. Nunca param.
- Nossa!!!

O Professor

- Humilhação, humilhação. Bando de filhos da puta. Mulherada recalcada. Vacas desgraçadas.
O ônibus ia em direção à zona norte, já passara do local onde o cheiro da esquerda recende. Ele, um professor voltando do centro e de uma tentativa de inscrição para ser professor temporário, onde fora humilhado pelo sistema, tanto o do computador como o do aparelho do estado. Professor de História... chacoalhando no latão abarrotado, ia pensando que merda tinha feito da sua vida.
- Porra, professor, por que fui escolher logo professor. E de História ainda. Deveria ter feito outra coisa. Que merda... humilhação, humilhação, bando de filhos da puta. Mulherada recalcada. Deveria ter feito algo que me desse mais conforto. Não serei mais professor.
Aquela era a última viagem que faria com dinheiro que sobrara do que havia guardado do estágio. Agora, do centro para casa só a pé.
Por falar nisso, estava de pé no ônibus, segurava a mochila no meio das pernas, que estavam cansadas, de tanto batê-las por aí. De repente olhou para dois meninos no banco da frente. Conversavam animadamente, contando firulas, jogos, sacanagens, fofocas, recordes... um deles, que estava com a manga da camiseta arregaçada começou a desenhar algo no braço, de início parecia uma cruz - o ônibus chacoalhava bastante – até que assustadoramente viu que o menino desenhara uma suástica no braço.
- Oi... Você sabe o que é isso que está desenhando no seu braço?
- Mais ou menos. É um negócio para a gente ter força e andar em grupo e todos vão se proteger uns aos outros. Ninguém vai roubar os empregos da gente e a gente vai poder andar de cabeça erguida. Foi o cara lá da rua que falou pra gente.
Sua nuca arrepiou como de uma gata protegendo os filhotes. A janela do ônibus aberta fazia com que o vento lambesse seu rosto trazendo a tona tantos pensamentos que foi preciso um tempo para colocá-los em uma ordem até que chegassem à boca.
Calmamente chegou mais perto e falou quase num lamento
- Vocês já ouviram falar da segunda guerra mundial?
Os meninos se olharam.
- Mais ou menos.
Dentro do latão chacoalahndo deu a sua melhor aula. Ao final o guri da suástica lambia os dedos e tentava apagar o que havia desenhado. Esfregou tanto que a pele ficou vermelha. Levantaram-se ele e o colega.
- Tchau tio. Descemos no próximo... O senhor é professor né?
Engoliu em seco, olhou para o chão, titubeou um pouco.
- Sou sim.
- Ah... eu sabia... Valeu tio.

Lei, ora a lei?

Um grande amigo meu, Felipe Costa, amante da ilha do Desterro, mas com um pé lá no Rio Grande do Sul e simpatizante das idéias de Roberto Freire, tem uma camiseta com essa frase: Lei, ora a lei. Junto há uma imagem do Gordo e o Magro, dando gargalhadas apontando para um guarda que está com cara enfezada.


Quem não conhece o Gordo e o Magro, Oliver Hardy e Stan Leurel não sabe o que está perdendo, mestres da comédia no tempo que para fazer rir não era preciso mostrar a bunda.

Bem, vendo as notícias da prisão dos diretores da Construtora Camargo Corrêa, onde são mostradas algumas “pequenas” doações para a FIESP e para os partidos PSDB, DEM, PPS, PSB, PDT, PP e PMDB, fico abobado com a cara de pau dos envolvidos falando: “Essas doações estão contabilizadas, temos recibo e tudo mais, ESTÁ TUDO DENTRO DA LEI”.

É, queria saber qual o interesse de uma empresa em doar R$ 300.000,00 para um partido político, e aqui não faço defesa do partido A, B ou C. O que quero chamar atenção é sobre a doação em si. E ainda dizem que estão sendo perseguidos. O que faz com que a imprensa mude o foco da notícia.
Isso me lembra a história da velinha que atravessava a fronteira todos os dias com um saco na garupa da sua lambreta. O guarda parava e procurava no saco de areia o suposto contrabando, nunca encontrava. Passaram anos até que um dia ele tomou coragem e perguntou:
- Todos os dias a senhora passa aqui com essa lambreta e um saco nas costas. Pode ser sincera comigo, não contarei para ninguém. Onde a senhora coloca a muamba? O que é que a senhora está contrabandeando?
- Lambreta.

Pois é, doar trezentos pau para uma empresa privada de construção civil pode. Tá na lei.

Lei, ora a lei.

Molho Maikon K

Vou dar esse nome para esse molho porque foi no aniversário do meu amigo Maikon que tentei fazê-lo a primeira vez. No dia não deu muito certo porque coloquei muito vinho. Agora acertei.

Ingredientes:
1 copo de vinho branco seco;
½ Dente de alho;
6 Tiras de cebolinha;
1 Caule de salsa;
1 Pitada de orégano;
4 Folhas de manjericão;
1 colher de manteiga;
1 colher de maizena;

Ferva o vinho com o alho, as cebolinhas, a salsa o orégano e o manjericão até diminuir mais ou menos 1/4 do copo.
Tire tudo e bata no liquidificador com mais meio copo de água, coe e reserve.
Em uma panela desmanche a colher de manteiga e quando estiver derretida (não deixe queimar) adicione o liquido que foi batido no liquidificador.
Quando esquentar adicione a maizena dissolvida em um pouquinho de água. Vá mexendo lentamente até engrossar. Tempere com sal ao seu gosto e se quiser (ou puder) uma pitada de pimenta do reino (branca).

Dá para usar para gratinar filés ao forno, mas como o MK é vegetariano a dica é colocar sobre legumes grelhados sem sal.

Ps: Lembrei também que o blog seria para eu colocar minhas receitas. Bom, antes tarde do que nunca.

Pasta de Ricota

Ingredientes:
1 pacote de ricota c/ sal;
1 dentes de alho;
¼ cebola;
¼ pimentão vermelho;
¼ pimentão amarelo;
¼ pimentão verde;
1 tomate;
1 pacote 50g queijo ralado;
2 colheres de shoyu (não ponha muito);

Corte tudo bem picadinho, menos a ricota, mas picadinho mesmo, para ficar bonito, depois amasse a ricota com as mãos em uma forma e adicione o que foi picado.
Tem quem goste de dar uma fritada nos pimentões e na cebola, eu prefiro cortar em pedaços bem pequeno e misturá-los ao natural.
Tempere com sal a gosto (não esqueça que o queijo ralado é salgado).

Sugestões:
Pode colocar também manjericão, orégano, cebolinha e salsa.
Quem gosta pode colocar duas colheres de requeijão.
Se quiser pode por cenoura ralada, só que ela rouba a cor de tudo.
Pode por também pedacinhos de brócolis (bem pequenos e ferventados).

Pode servir como pasta ou recheio de salgados.

Pasta de Berinjela

Ingredientes:
2 berinjelas;
3 dentes de alho;
½ cebola;
½ pimentão vermelho;
½ pimentão amarelo;
½ pimentão verde;
1 colher sopa mostarda;

Corte a berinjela de comprido (como bifes), deixe de molho na água por uns quinze minutos, ou enquanto pica tudo que tá ali em cima bem picadinho.
Refogue as berinjelas e vá estendendo em uma forma, depois jogue os ingredientes por cima das berinjelas.
Jogue por cima sal a gosto, orégano, e tudo o que você gosta, SÓ NÃO SE EMPOLGUE, pode ser uma pimentinha, manjericão, cominho e alecrim.
Deixe no forno alto até ficar escurinha (de quinze a vinte min. depende do teu forno) depois tire e amasse com um garfo, jogando um fio de azeite de oliva por cima.

Pode servir quente ou fria.
Rende o suficiente para um bom papo.

Filmes que o Maître recomenda.

- Cinema Paradiso (é o primeiro por ser o preferido, os outros estão por ordem de memória)

Brasileiros
Tapete vermelho
O auto da compadecida
Cafundó
O cheiro do ralo
Abril despedaçado
Ó pai ó
O homem que desafiou o diabo
Cidade de Deus
Bicho de 7 cabeças
Narradores de Javé
A pessoa é para o que nasce
Cronicamente inviável
Doutores da alegria
Quanto vale ou é por quilo
Saneamento básico
Estômago

Ditaduras
Batismo de sangue (brasileiro)
Cabra cega
Capitães de abril
Vozes inocentes
Machuca (Chile)
Chove sobre Santiago (Chile)

Documentários
Corporation
Timor Leste
SICKO $O$ saúde
Patria proibida
Buena vista social clube

Para pensar
Um grito de liberdade
A vida dos outros
Crash
Babel
Mar adentro
Bang Bang você morreu
Ensaio sobre a cegueira
DogVile
Instinto

Para se emocionar
O escafandro e a borboleta
Redenção
O labirinto do Fauno
O Orfanato
Piaf
Nome de família
O Buda
O carteiro e o poeta
Em busca da terra do nunca
História sem fim
Juno
Amor além da vida
Melhor é impossível
Pequena miss Sunshine
Zorba o grego
O grande debate
Monster
Gandhi
Brilho Eterno de uma mente sem lembrança
O fabuloso destino de Amelie Poulain

Para se aventurar
X-Men (todos)
Cruzada
Coração valente
Coração de trovão
Dança com lobos
Enterrem meu coração na curva do rio
Forrest Gump
O nome da rosa

O nome do blog

Mas deu trabalho achar um nome para o blog, meu Deus do céu, parecia novela mexicana. Após muito pensar e conversar com amigos, encher o saco do meu amigo Maikon e da minha esposa Gisa, acabei gostando desse nome. (ou enchendo o saco de procurar)

O nome inicial seria "Pasta de Berinjela". É que esse é um dos pratos que gosto de fazer para os amigos quando nos reunimos de quando em vez. Um dia, o regabofes era para ser lá em casa. O menu contava com diferentes tipos de pastas: berinjela, guaca-mole, de ricota, de palmito e mais um monte de tipos de pães: amanteigado, com gergelim, sírio, francês e por aí vai.

Mais tarde soube que meu grande amigo, e belo também, Índio, chamou o Maikon de lado e disse:
- Porra! Pasta de berinjela? O que é que o Alberto quer com pasta de berinjela?

No final da reunião, voltando para casa ele disse ao Maikon:
- Cara, que negócio bom essa tal de pasta de berinjela. Melhor que arroz com merda (essa frase indica algo muito bom, será encontrada mais vezes por aqui).

A idéia era escrever sobre pedacinhos de vontades que flutuam nas paredes da minha mente, e esta, tal qual um quarto escuro que precisa ser limpo e está cheio de pó, idéias e memórias caidas no chão, também anseia por uma boa limpeza, uma geral, uma chacoalhada. Ou quem sabe somente passar um paninho nessas lembranças que estão jogadas e colocá-las de volta na estante dos dias.

Mas não serão somente memórias, a idéia é escrever sobre a vida, sobre minhas angústias, minha inocente (e persistente) crença no ser humano, algumas receitas de comidinhas gostosas para os amigos fazerem com suas amadas, ou suas amantes, ou suas ficantes, ou para eles simplesmente lembrarem de algum momento que passamos juntos enquanto bebíamos, comíamos, ríamos e sonhávamos na minha cozinha.

Bom, o nome poderia ter sido degustandoideias, temperandomemorias, temperandoaquilo, degustando, mastigando, provando, cozinhando e por aí vai...
Ficou memórias... Sem elas a vida não tem sabor, é como um molho sem ervas...