Efemeridades

Quando nasceu ninguém acreditava que uma coisinha tão novinha quanto ela pudesse causar tanto espanto e ao mesmo tempo uma sensação tão forte de alegria.
Quem olhava para ela, assim tão... tão linda, sentia-se como que levado a um tempo distante. Uns lembravam da infância, outros emocionavam-se, alguns deixavam-se ficar discretamente extasiados, seguindo-a com os olhos lentamente, onde quer que ela fosse.

Seria assim a vida toda. Brilhante. Cheia de si. Colorida. Onde passava chamava a atenção. Não havia um que não parasse para olhar, desde crianças até os velhos.

Gostava daquilo, levitava acima da cabeça dos homens com algo estampado na face que deveria ser um sorriso, transfigurado em diferentes imagens.

Saindo do útero que a desenvolveu, era frágil e um pouco careca, de imediato a vida pareceu ter ficado suspensa no ar por alguns instantes. Aquela que a gerou, espantada, imaginou que ela iria sucumbir ao peso do mundo. Mas tornou-se forte. E tão logo bateu uma brisa, ela, já agora mais adulta para o seu tempo, mas ainda uma mocinha, deixou-se levar.


Não olhou para trás, ansiava por aquilo. Aliás, tinha na mente a certeza que havia nascido para isso, para brilhar alto, para subir, para ser vista, para transformar aqueles que a vissem, simples mortais, em estátuas vivas de um ponto no tempo.


Quando ela cansou daquela vida, do glamour, do olhares pedintes, da imensidão, do vazio, dos desejos incontidos de tocá-la, da precária leveza que a mantinha acima das mesquinharias da alma humana, fechou os olhos e começou a perder as cores que lhe eram características, sua queda foi lenta, mas visível a todos. Foi murchando, diminuindo, foi ficando pálida, quase transparente. Mesmo assim, ainda era bela de ser observada. Já não dava as voltas que dava antes, as piruetas, os altos e baixos da vida, mas era sempre bom olhar para ela.


Imagine que nessa idade já avançada para seu tempo, um último amante buscava-a com sofreguidão, ela deixou-se encantar pelos olhos da criatura, que apesar de tão nova, da diferença tão grande de idade desejava-a acima de tudo, ao menos nos breves segundos que seus olhos se cruzavam.

Foi nessa época que entregou sua alma inteira ao amor, como um último ato de rebeldia e coragem. Foi-se, inteira para os braços do amado e ali deixou-se morrer. Presa nas suas mãos. Sua morte desencadeou uma série de olhares atônitos aos que estavam próximos. Explodira em pequenas gotículas de bondade e alegria que cravaram-se naqueles espíritos sedentos de compaixão e esperança. Depois a vida continuou normalmente, como sempre continua após a morte, todos voltaram as suas preocupações corriqueiras, em breve, aqueles transeuntes de um shopping esqueceriam que viram uma bolha de sabão por alguns segundos.

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