Nasceu daquele jeito, ninguém sabia porque. Nem a parteira, nem a benzedeira, nem as enfermeiras e nem o médico da cidade, que pior que o padre, disse que aquilo era filho do pé-rachado, do coisa ruim. O padre, ao contrário do médico, disse que era um bom caso para a medicina estudar, vai entender.
Independente de opiniões, havia nascido, isso era fato, e exceção da mãe, ninguém mais quis saber de passar perto daquela casa, pois diziam que o menino era feio demais, quem tinha nojo de sangue e de tripas era bom que nem olhasse, botava os bofes para fora na hora, era muita feiúra numa pessoa só.
O pai abandonou a casa dois dias depois do parto, disse que não conseguia comer mais. O parto foi sofrido. Quando finalmente saiu do ventre da mãe a parteira desmaiou, a ao acordar saiu em disparada benzendo-se e gritando:
- Valei-me nossa Senhora, valei-me nossa Senhora.
Até que o resto da cidade soubesse de boca-a-boca que o filho da dona da floricultura havia nascido do lado do avesso.
- Como do lado avesso?
- Do lado avesso ora.
- Mas como assim? Assim com as coisas de dentro pra fora?
- É. Dizem que é né! Eu mesma nunca vi.
E assim seguiam os rumores nas rodas das feiras, nos cochichos no fundo da igreja e nas mesas dos bares.
- Mas pobre coitado, nunca vai arranjar uma mulher.
- Mas como é que alguém vai querer alguém do lado do avesso.
- Mas como que é? Fica assim o fígado pendurado de um lado o baço de outro e o pulmão aparecendo?
- Olha, não sei, porque ver mesmo eu nunca vi, mas dizem que é assim.
Anos mais tarde, a mãe que nunca deu bola para as fofocas estava quase morrendo, preocupava-se: Quem vai cuidar do meu filho? Colocou anúncio no jornal: Procura-se moça para cuidar de um jovem que nunca saiu na rua e que nasceu do lado do avesso.
Só uma mocinha apareceu, muito sofrida, um pouco magra, cara de choro e sorriso de tristeza, havia sido abandonada no altar três vezes e aquilo lhe dava um peso nos ombros que pareciam arqueá-la. Precisava de dinheiro, não suportava mais a família dizendo que ela nunca iria encontrar um homem. Quando ela viu o rapaz se apaixonou, ao contrário de todas as outras pessoas, não correu, o rapaz era do lado do avesso é verdade, porém, não eram as tripas que ficavam para fora, mas seus sentimentos. Era completamente transparente. Quem via, não suportando deparar-se com a verdade que brotava dele, corria, com medo de si mesmo.
A jovem, que até então não conhecera ninguém sincero, cuidou dele, como quem cuida de um pequeno e frágil passarinho... até o dia de sua morte.
ps: desejo a todos que porventura apareçam por aqui um bom ano, de muita saúde e muita alegria. Que a terra nos seja leve.
3 comentários:
Feliz Ano novo pra vocês.
Abrços grandes, Josi
Gostei desse do lado avesso, me surpreendeu!
Abraços
Jaci
Ainda bem que há pessoas do avesso.
Muito bom
Parabéns!
Um ótimo ano para ti também!
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