A Corda

Viveu como um fantasma, da mesma maneira que morreria, sem ter feito diferença nenhuma na vida dos outros. Não falava muito, aliás, quase nada. Trabalhou vinte e dois anos na mesma empresa e antes disso mais treze em uma concorrente. Mudou por vontade e convite. Iria crescer e fazer a diferença. A diferença ficou na marca do café. O que cresceu foi só a barriga atrás da mesa. O resto foi o mesmo. A mesma vida fudida de sempre. Não falava com ninguém, não tinha amigos, não saía para jogar bola e beber cerveja com os colegas, não tinha namorada e nem parentes. Ia para casa no final do dia para regar as plantas e assistir televisão. Passava na venda da Dona Sunta e comprava alguma comida, tomava um trago de Undenberg - só um, nunca mais do que um – e ia para o apartamento. Tão silencioso que nem notavam quando ia embora.
A rotina era sua vida. Até para dar uma trepada. Todo dia vinte e seis de cada mês, Bárbara ia ao seu apartamento, ele lhe acompanhava até seu quarto onde ela tirava a roupa, deitava de pernas abertas e ele se embrenhava entre suas coxas. Ficava naquele vai e vem durante quatro, no máximo, cinco minutos. Depois saia e deitava ao lado dela que esperava quieta por exatos dois minutos. Ele levantava e lhe dava o dinheiro.
- Desculpe alguma coisa.
- Tá tudo bem.
Esse era o único diálogo entre eles.
Ela sentiu uma diferença depois da morte da mãe. Depois de vinte anos servindo-o todo mês, escutou ele soltar um gemido, foi curto, quase imperceptível, mas ela escutou. Naquele dia ele pediu desculpas duas vezes.
Bárbara, que se chamava na verdade Maria das Dores, entregava-lhe suas carnes regiamente há tanto tempo que ele viu cada varize aparecer nas suas pernas, cada ruga sulcar-lhe o rosto, viu os seios murcharem, mesmo sem que nunca tivesse ousado tocá-los, só os via com o canto do olho, discretamente. Envelheceu ali. Naquele apartamento com ares de carniça.
Era seu último cliente fixo. Trabalhava na rua agora. Os cabarés só querem moças.
Ela era a única pessoa que conhecia aquele apartamento. Nunca falou nada da sujeira.
Ele cuidava da mãe desde os vinte anos. No dia da morte da senhora os vizinhos que entraram no apartamento de dois quartos e forro de gesso tiveram que tampar o nariz. De tanto a mãe se mijar nas fraldas e esperar ele voltar do serviço, o cheiro da urina foi impregnando as paredes, o sofá, o tapete... a pele.
Depois que ela se foi, os vizinhos puderam vê-lo sair duas vezes. Uma na missa de sétimo dia, outra na missa de um ano.
Bárbara era uma mulher exuberante. Pele leitosa, cabelos loiros e compridos, agora pintados por causa dos fios brancos; Seios fartos e duros, agora caídos e murchos; Coxas grossas, agora cheias de varizes; Ancas largas, agora cheias de estrias.
- Quer uns carinhos, bonitão?
- Não... eh… não, obrigado.
- Você não vai se arrepender.
Ela estava com um sapato alto, saia com corte na coxa, boca vermelha, um sorriso que mesmo forçado era bonito e aquele cabelão solto que ele gostava tanto. As madeixas exalavam um cheiro de maracujá. Seria capaz de reconhecer aquele cheiro em qualquer lugar do mundo. Cinco minutos por mês, nos últimos vinte anos, emaranhava-se naqueles cabelos, tentava não respirar, para manter aquela sensação mais tempo, mas ao respirar gozava.
Nas poucas vezes que trocaram palavras ele disse:
- Não faça barulho para não acordar minha mãe que está no quarto ao lado.
Anos mais tarde diria:
- Minha mãe morreu.
E ela disse seis vezes ao longo dos anos:
- O preço aumentou.
E uma vez:
- Meus pêsames.
Um dia, depois de receber o dinheiro foi ao banheiro, quando voltava viu algo embaixo da cama. Aquilo nunca estivera ali, conhecia bem o quarto e a cama de solteiro. Aquela noite ele também estava diferente. Antes de iniciar o coito ficou olhando para ela durante algum tempo. Sentiu o pescoço molhado no lugar onde ele sempre enfiava a cara, lágrimas, estranhou mais ainda, mas não perguntou nada.
Não queria incomodá-lo, ultimamente estava cada vez mais estranho. Depois que se aposentou ficou diferente, a casa mais suja, mais barbudo, deu para jogar as cinzas e bitucas de cigarro no chão do quarto, os cinzeiros estavam cheios demais.
Quando ele foi ao banheiro ela olhou sob a cama viu o que era. Assustou-se. Coração disparou. Entristeceu só de pensar na possibilidade.
Foi no dia vinte e seis de dezembro do quarto ano de seus encontros mensais que ele lhe deu de presente um pijama. Comprido e nada sensual. Ela agradeceu e disse que era bonito, e passou a receber pijamas de algodão todo dia vinte e seis de cada mês de dezembro. Era o único presente que recebia no natal. A filha e o filho nunca mais viu, a última vez que encontrou o filho e pediu uma ajuda, ele bateu a porta da casa e cuspiu na cara dela, tinha uma família agora, ela que nunca mais aparecesse ali.
Ele nunca regateou preço, possuíam uma relação comercial, afetos são proibidos nesse submundo cinza. Mas ultimamente a solidão que ele carregava invadia-lhe as narinas a ponto de sofrer por ele, e um dia se pegou ansiosa pela chegada do final do mês.
Foi uma surpresa e um susto quando ele saiu do banheiro e viu-a varrendo o chão. Em todos aqueles anos ela ia direto da porta de entrada para o quarto dele. Outros cômodos eram proibidos. Sentou na cama e ficou observando ela trabalhar. Então deitou e chorou, chorava convulsivamente, chorou tudo que nunca havia chorado em toda a vida miserável e vazia que teve. Ela sentou na cama e passou a mão no seu cabelo, ele perguntou:
- Quanto custa para abraçar?

8 comentários:

murilo disse...

foda

elton disse...

Quem são essas pessoas que passam silenciosas pela vida? É isso que eu tenho me perguntado. O mundo me assombra, é muita gente.

Como de costume, mandou bem.

eloisaeckhoff disse...

putz mto bom!!!

Filipe Ferrari disse...

Se ele fosse um bêbado inveterado ao invés de um trabalhador, iria dizer que você anda lendo muito o baixo-ajuda, haha.

Apesar de os estilos serem meio diferentes...

No mais, foda, como disse o primeiro comentário :)

Saudades meu amigo

Secretaria Regional do Costa e Silva disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Anônimo disse...

Quando li senti a solidão dos persongens e no final tive vontade de abraçá-lo.

Gisa

Canteiro Pessoal disse...

Bem. Cheff. Que relato intenso. Penso no quanto 'muitos' vivem este papel. Muito triste. Um trecho chamou minha atenção, que seria: 'Tão silencioso que nem notavam quando ia embora'. Penso: Que todos nós somos notados, em silencio muitos nos observam. Apenas não tomam atitude da aproximação. Tudo porque assola a mente, o que os outros vão pensar?

Fica na paz

Priscila Cáliga

elton disse...

O Nuno Ramos ganhou o Portugal Telecom e eu ainda não o li. Estou envergonhado. (e de certa forma, lisonjeado, coisa estranha)